Opinião: O que as urnas disseram (e muita gente fingiu não ouvir)
Desqualificar o eleitor é fácil. Entender por que ele mudou de lado dá mais trabalho.
Orestes Junnior | Jornalista e editor do Poder RS
A eleição de 2026 não cabe na moldura de Lula contra Flávio. Sim, Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno na frente. Mas o terremoto de verdade aconteceu no resto do mapa: a direita cresceu na Câmara, cresceu no Senado e mostrou que a mudança é mais funda do que os nomes na urna. Rotular esse eleitor de desinformado, radical ou manipulado é um consolo barato. Serve para quem perdeu espaço dormir tranquilo. Não serve para entender o que milhões de brasileiros resolveram dizer.
Comecemos por Brasília, ou melhor, pela Praça dos Três Poderes. Há uma parcela do país em rota de colisão com o Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes virou o rosto mais conhecido dessa irritação, mas a conta chega também a Gilmar Mendes, Flávio Dino, Dias Toffoli e outros. O caso Banco Master, com suas revelações em série sobre a convivência entre empresários, políticos e gente do Judiciário, jogou luz onde a toga preferia penumbra. Nem todo voto à direita foi um voto contra o STF. Dizer isso seria exagero. Fingir que esse sentimento não existiu seria cegueira. A direita farejou a insatisfação, deu a ela um discurso e foi buscar os votos.
O brasileiro talvez não acompanhe cada decisão tomada em Brasília. Acompanha, porém, o efeito delas na sua vida, e disso tira suas conclusões. Aí está uma lição dura desta eleição: o povo pode ser tratado como bobo por políticos, partidos e instituições, mas bobo não é. Observa, anota, guarda. Quando chega a urna, cobra. A força de quem fez da crítica ao Supremo bandeira sugere que muita gente escolheu o Congresso como contrapeso ao Judiciário.
Mas há uma razão mais caseira, e quase sempre mais decisiva: a economia. Campanhas adoram falar de narrativa, comunicação e estratégia. Nenhuma delas, porém, convence alguém a ignorar a distância entre o que entra na conta e o que cabe no carrinho. O eleitor pode não saber explicar resultado primário ou arcabouço fiscal. Sabe quanto custa o supermercado. Sabe o juro da prestação, o preço do remédio e o que sobra (ou nao sobra) no dia 30. Quem empreende soma a isso imposto, burocracia, crédito caro e a sensação de que as regras mudam com o jogo em andamento. A velha máxima americana continua de pé: “é a economia, idiota!”
O governo Lula respondeu a boa parte do desafio fiscal tentando arrecadar mais, com aumento de impsotos, reoneração, mudança de alíquota, corte de benefício e novas incidências. Não precisa inventar dezenas de impostos novos para reconhecer a bússola: ela aponta para a arrecadação. A reforma tributária, que nasceu com a promessa de simplificar um dos sistemas mais enrolados do planeta, desperta temor em setores, sobretudo nos serviços, que desconfiam da conta final. Para quem acredita que a riqueza nasce da iniciativa privada, o caminho seria o inverso: segurar despesa, enxugar o Estado, cortar burocracia e deixar o brasileiro trabalhar, investir e produzir.
E aqui chegamos a uma divergência legítima, que o país precisa reaprender a respeitar. A esquerda aposta num Estado pesado e forte, capaz de arrecadar, gastar, investir e redistribuir. O liberalismo parte de outro princípio: limitar o poder estatal e dar mais espaço ao indivíduo, à propriedade, à livre iniciativa. Dá para discutir qual modelo entrega mais. Dá para pôr números e experiências na mesa. O que não dá é transformar uma discordância de ideias em um concurso de superioridade moral.
Talvez esse seja o maior equívoco de parte da esquerda: achar que defender suas posições lhe garante o monopólio da democracia e das boas intenções. Quem pensa diferente não é, por definição, autoritário. A imensa maioria de quem vota na direita quer o que acredita ser melhor para o Brasil, exatamente como quem vota na esquerda. Um liberal pode defender as instituições e, ao mesmo tempo, querer menos Estado, menos imposto e mais liberdade. Divergir não é defeito de caráter.
Por isso o segundo turno vale mais do que a escolha entre dois nomes. Flávio chega embalado por uma onda que atravessou várias disputas. Lula chega diante de um eleitorado que expressou insatisfação econômica, institucional e cultural. A pergunta que a esquerda faz é “por que essas pessoas votaram errado?”, mas deveriam questionar e refletir “por que tanta gente parou de acreditar no que estamos oferecendo?”. O STF foi alvo, claro, mas o governo desastroso de Lula é quem moveu mais corações e mentes.
Enquanto qualquer campo preferir desqualificar o eleitor a entendê-lo, vai seguir conversando só com quem já concorda. O eleitor entendeu a mensagem. Uma multidão apenas decidiu que queria outra coisa. E foi à direita.

