Mensagens de Vorcaro revelam que Aelbra era tratada como um dos principais problemas do dono do Banco Master
Conversas divulgadas pelo Metrópoles mostram que o ex-advogado-geral da União Fábio Medina Osório identificou riscos envolvendo a mantenedora da Ulbra e tentou aproximar o banqueiro de autoridades federais
Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, colocam a Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), novamente no centro das investigações sobre os negócios do banqueiro. Segundo reportagem publicada no sábado, 10, pelo Metrópoles, o ex-advogado-geral da União Fábio Medina Osório identificou a situação da Aelbra como um dos principais problemas que precisavam ser resolvidos para que Vorcaro pudesse desenvolver suas atividades empresariais.
A informação aparece em conversas nas quais Medina Osório menciona dois pontos de preocupação: um risco relacionado à Aelbra e outro de natureza criminal. O ex-AGU se dispõe a trabalhar para solucionar essas questões. A reportagem não esclarece qual seria o problema criminal mencionado. A referência à Aelbra, entretanto, é significativa porque demonstra que a situação da instituição era tratada como uma preocupação estratégica no círculo jurídico de Vorcaro.
A descoberta acrescenta uma peça importante ao histórico das relações entre o Banco Master e a mantenedora da Ulbra. Reportagens anteriores já haviam identificado operações de financiamento, aquisição de créditos e interesses econômicos ligados à instituição de ensino. Um dos principais personagens dessa estrutura é o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Calêndula, associado ao universo de negócios do Master, que acumulou créditos de elevado valor nominal contra a Aelbra. Essas operações despertaram interesse especialmente em razão dos ativos educacionais da universidade, incluindo seus cursos de Medicina.
O interesse pelos cursos de Medicina ganhou maior dimensão após a divulgação de mensagens entre Vorcaro e Maurício Quadrado, empresário ligado à estrutura de fundos que mantinha créditos contra a Aelbra. Conforme revelou o Valor Econômico, os dois acompanharam o julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre as regras de autorização de cursos de Medicina, no âmbito da ADC 81. Em maio de 2024, após a conclusão da votação, Quadrado comunicou ao banqueiro que haviam vencido. A decisão do STF estabeleceu regras de transição que alcançaram processos administrativos relacionados à abertura de cursos, entre eles procedimentos de interesse da Ulbra.
As novas conversas divulgadas pelo Metrópoles também revelam que Medina Osório buscou aproximar Vorcaro de integrantes de instituições federais. Entre os nomes mencionados estão o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o ministro do STF Kassio Nunes Marques; a procuradora-geral da Fazenda Nacional, Anelize Lenzi; e Jorge Messias, então advogado-geral da União. Uma das oportunidades consideradas para esses contatos foi a festa de aniversário da filha de Medina Osório, realizada em Brasília, em março de 2024.
Segundo a reportagem, Paulo Gonet e Anelize Lenzi participaram da comemoração, mas Vorcaro não compareceu. Portanto, as mensagens documentam tentativas de aproximação institucional, sem comprovar que o banqueiro tenha se encontrado com essas autoridades naquela ocasião ou recebido qualquer benefício. Medina Osório foi procurado pelo Metrópoles, mas não havia apresentado manifestação até a publicação da reportagem.
O novo material também amplia as perguntas sobre a natureza dos interesses do Banco Master na Aelbra. A universidade atravessa um longo processo de recuperação judicial, com dívidas trabalhistas expressivas e negociações envolvendo credores e ativos. Paralelamente, operações financeiras relacionadas à instituição atraíram a atenção de investidores interessados em seus negócios educacionais. Nesse contexto, identificar exatamente qual risco Medina Osório pretendia solucionar poderá ajudar a esclarecer a dimensão dos compromissos e interesses econômicos de Vorcaro na mantenedora da Ulbra.
A principal novidade não é a existência de relações financeiras entre o Master e a Aelbra, já conhecida, mas o registro de que a situação da mantenedora figurava expressamente entre as preocupações de um interlocutor jurídico do banqueiro. A documentação divulgada até agora não demonstra interferência indevida de autoridades, participação de Carlos Melke nas conversas reveladas ou qualquer irregularidade relacionada ao julgamento da ADC 81. Mas acrescenta uma nova linha de investigação: compreender por que a Aelbra representava um risco tão importante para Vorcaro, quais interesses estavam em jogo e que providências foram efetivamente adotadas para protegê-los.
O Poder RS já revelou aqui que o Banco Master indicou dois vice-presidentes da Aelbra, presidida por Carlos Augusto Melke Filho. Antônio Carlos Romanoski ocupou a vice-presidência da Aelbra desde março de 2002. por determinação do Master, Marcello Stewers assumiu no final de 2024 como vice-presidente e diretor administrativo-financeiro da Aelbra, substituindo Romanoski, que permaneceu como diretor institucional, a convite de Melke. Stewers deixou a instituição em maio de 2025.
Pergunta sem resposta
Se o Master nunca esteve vinvulado à Albra/Ulbra, como afirma a própria universidade (“a AELBRA/Ulbra não é nem nunca foi controlada pelo Banco Master ou por fundos associados ao banco”), por que o banco indicada os vice-presidentes? Em nota oficial de 6 de março deste ano, a instituição afirma que sua relação com o banco era de devedora e credores, no âmbito da recuperação judicial.

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