Vorcaro colocou Ulbra no centro de articulações sobre Medicina enquanto pagava R$ 500 mil mensais a ex-cunhado de Gilmar Mendes
Mensagens do celular do dono do Banco Master reveladas por Folha e Estadão mostram Francisco “Chiquinho” Feitosa tratando de interesses ligados à Aelbra, ao MEC e à ADC 81. Fundo Calêndula, ligado ao Master, financiava a mantenedora da Ulbra e tinha interesse na aquisição de uma unidade de Medicina
O caso ganha dimensão especial porque um dos assuntos identificados pelo Estadão nas conversas era justamente a ADC 81, ação relatada por Gilmar Mendes que discutia as regras para abertura de novos cursos e vagas de Medicina no Brasil. Ao mesmo tempo, o Calêndula FIDC, ligado em sua origem ao Banco Master, era credor e financiador da Associação Educacional Luterana Do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), e o próprio Master tinha interesse, reconhecido pela Aelbra, na aquisição de unidades de faculdades de Medicina.
A documentação não demonstra em si que Gilmar Mendes tenha favorecido Vorcaro, o Master ou a Ulbra. Segundo a Folha, o ministro nega ter discutido com Vorcaro ou Feitosa assuntos relacionados ao MEC e afirma que não conhecia as tratativas mantidas entre seu então cunhado e o banqueiro. Também ressalta que seus votos não beneficiaram os interesses atribuídos ao Master.
Mas as novas revelações acrescentam uma conexão direta que até agora não estava documentada publicamente: Vorcaro atuou pessoalmente para aproximar um interlocutor ligado à Ulbra de Chiquinho Feitosa, que recebia valores elevados de uma empresa ligada ao banqueiro e acompanhava a pauta dos cursos de Medicina.
Vorcaro faz a ponte com a Ulbra
Segundo a Folha, as mensagens mostram Vorcaro enviando a Chiquinho Feitosa o contato de uma pessoa ligada à Ulbra. Feitosa confirmou à reportagem que efetivamente se encontrou com essa pessoa. Disse que a reunião ocorreu a pedido de Vorcaro e que seu objetivo teria sido apenas ouvi-la.
O Estadão identifica esse interlocutor como Thomas Heimann, que foi reitor da Ulbra de 1º de janeiro de 2020 a 9 de outubro de 2024, e insere o encontro na sequência de conversas envolvendo a Aelbra e os cursos de Medicina. Feitosa afirmou não se recordar do conteúdo das tratativas relacionadas à instituição e à Medicina.
Aqui o Estadão provavelmente se equivocou ao identificar o interlocutor. Pessoas próximas ao presidente da Ulbra S.A., controladora da Ulbra, Carlos Augusto Melke Filho, dizem que o reitor cuidava exclusivamente de assuntos acadêmicos. O homônimo Thomas Dulac Müller, advogado, era muito mais próximo à Melke e agia nos bastidores da universidade.
Ouvido pelo Poder RS, o ex-reitor disse: “Não faço a mínima ideia do que se tratam essas conversas nem quem seja essa pessoa. A mantenedora jamais envolveu a reitoria em assuntos de compra e venda dos Cursos de Medicina, cabendo à Reitoria deliberar questões apenas no âmbito acadêmico-pedagógico. Mesmo assim, é desagradável ver meu nome equivocadamente incluído nestas questões, que tem gerado muito desconforto público”.
A conexão é relevante porque Vorcaro não aparece apenas recebendo informações sobre a universidade. Ele próprio promove a aproximação. E isso ocorre enquanto o Master já possuía interesses financeiros relevantes relacionados à Aelbra, que tinha vice-presidentes indicados pelo banco, Antônio Carlos Romanoski e depois Marcello Stewers.

O elo Calêndula–Master–Aelbra
Essa relação não é apenas uma inferência extraída das mensagens. Em nota oficial publicada em março deste ano, a própria Aelbra reconheceu que o Calêndula tem ligação, em sua origem, com o Banco Master e que o banco foi responsável por linhas de financiamento que deram liquidez a Carlos Melke para a aquisição das ações da mantenedora da Ulbra. A instituição afirma que nunca foi controlada pelo Banco Master ou por fundos associados ao banco e sustenta que sua relação com essas instituições é exclusivamente de devedora e credores. Entretanto, nunca responde porque o Master indicou dois vice-presidentes.
A mesma manifestação confirma outro ponto decisivo para compreender as mensagens agora reveladas. Segundo a Aelbra, havia interesse do Banco Master, por meio de operações de financiamento relacionadas à recuperação judicial, em adquirir unidades de algumas de suas faculdades de Medicina. Para participar do processo como potencial adquirente, o banco também comprou créditos da Aelbra no mercado secundário, tornando-se credor relevante.
O Calêndula chegou, inclusive, a ocupar a posição de stalking horse, uma espécie de proponente inicial, em operação envolvendo uma unidade de Medicina. Em julho de 2023, o fundo foi o único inscrito no leilão da Faculdade de Medicina, cujo preço mínimo era de R$ 700 milhões. O resultado acabou não sendo proclamado naquele momento por decisão judicial.
Portanto, quando as mensagens de 2024 são colocadas sobre essa cronologia, a Ulbra não aparece como uma universidade aleatória mencionada no telefone do banqueiro. Havia uma relação econômica anterior e um interesse concreto do ecossistema Master nos ativos de Medicina da Aelbra.
E então aparece a ADC 81
É aqui que a revelação do Estadão acrescenta uma peça fundamental. Segundo a reportagem, um dos dois assuntos judiciais tratados entre Vorcaro e Chiquinho Feitosa era a ADC 81. O outro envolvia precatórios do setor sucroalcooleiro adquiridos por fundos ligados ao Master.
A ADC 81 não é um processo lateral nessa história. Trata-se da ação que levou ao STF a discussão sobre a constitucionalidade das regras para criação de novos cursos e ampliação de vagas de Medicina. Gilmar Mendes era seu relator.
O processo foi julgado conjuntamente com a ADI 7.187. Em 5 de junho de 2024, o Supremo decidiu, por maioria, que novos cursos e novas vagas de Medicina dependem, como regra, de prévio chamamento público conforme a Lei do Mais Médicos. O Supremo, todavia, estabeleceu uma transição importante.
Cursos já autorizados em razão de decisões judiciais foram preservados, enquanto determinados processos administrativos iniciados por ordem judicial e que já haviam ultrapassado a fase inicial de análise documental puderam prosseguir, desde que cumprissem os critérios estabelecidos na legislação. Essa transição tinha consequências econômicas importantes para instituições privadas que haviam buscado judicialmente a abertura de cursos médicos.
R$ 500 mil por mês
Enquanto esses interesses eram tratados, Vorcaro e Feitosa negociavam uma contratação de alto valor. As mensagens analisadas pelo Estadão mostram que, em 11 de setembro de 2024, Chiquinho informou a Vorcaro que uma pessoa de sua equipe estava tratando do contrato. No dia seguinte, Leonardo Palhares conversou com Vorcaro sobre os valores: R$ 500 mil líquidos mensais, mais R$ 800 mil adicionais no primeiro pagamento. Vorcaro concordou.
Em outubro, outra mensagem atribuída a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, relacionou um pagamento de R$ 500 mil a Chiquinho. Em janeiro de 2025, o nome do empresário voltou a aparecer em uma lista de pagamentos. Feitosa inicialmente negou ao Estadão ter trabalhado para o Banco Master. Questionado especificamente sobre a Super Empreendimentos, confirmou posteriormente ter mantido contrato de consultoria com a empresa por um curto período. Disse que a companhia era considerada idônea naquele momento.
“Educação” entre as pautas
As conversas ficam ainda mais relevantes quando examinadas em conjunto. A Folha relata que Feitosa tratava com Vorcaro de assuntos relacionados a universidades privadas e fazia referências ao Ministério da Educação. As conversas se estenderam de abril de 2024 a junho de 2025. Em uma das mensagens aparece a expressão “MEC: Andando na velocidade esperada”, segundo a reportagem.
Em agosto de 2024, Feitosa também encaminhou a Vorcaro um ofício do Ministério da Educação denominado “padrão decisório cursos de medicina”. Feitosa afirmou que se tratava de documento público. A reportagem relata ainda tentativas de contato com o então ministro da Educação, Camilo Santana. Camilo negou ter recebido de Feitosa qualquer pedido feito em nome de Vorcaro.
Nenhum desses elementos, isoladamente ou em conjunto, comprova interferência sobre o MEC. Eles demonstram, porém, que educação superior e Medicina estavam efetivamente entre os assuntos acompanhados pelo interlocutor remunerado pelo entorno de Vorcaro.
A Ulbra no centro das relações
Quando as duas reportagens são cruzadas com documentos públicos da recuperação judicial e com a manifestação da própria Aelbra, forma-se uma sequência que merece investigação aprofundada:
Banco Master/Vorcaro → financiamento relacionado à aquisição da Aelbra → Calêndula como credor relevante → interesse em unidades de Medicina → ADC 81 no STF → Vorcaro tratando do processo com Chiquinho Feitosa → Vorcaro encaminhando a Feitosa uma pessoa ligada à Ulbra → encontro confirmado por Feitosa.
Há ainda um segundo eixo:
Vorcaro → Chiquinho Feitosa → referências ao MEC e à pauta “educação” → documento sobre padrão decisório de cursos de Medicina → tentativas de interlocução com Camilo Santana.
E um terceiro:
Chiquinho Feitosa → então cunhado de Gilmar Mendes → Gilmar como relator da ADC 81.
Essas relações precisam ser apresentadas com uma ressalva: proximidade, interlocução e interesse econômico não são prova de interferência, corrupção ou favorecimento. Até o momento, não foi apresentada evidência pública de que Gilmar Mendes tenha decidido a ADC 81 em benefício de Vorcaro ou da Ulbra. Também não há prova de que Camilo Santana tenha atendido qualquer solicitação do banqueiro.
Gilmar diz que não conhecia as tratativas
Gilmar Mendes afirmou não ter conhecimento das negociações entre seu ex-cunhado e Vorcaro e disse não ter sido procurado pelo banqueiro sobre os assuntos relacionados ao ensino superior mencionados nas mensagens. Em outra frente revelada pelas mensagens, o ministro recebeu, em abril de 2024, advogados que tratavam de uma causa envolvendo precatórios de interesse econômico do ecossistema Master. Gilmar afirma que a audiência ocorreu institucionalmente em seu gabinete e ressalta que votou contra os interesses atribuídos ao Master nos processos mencionados. Feitosa também nega ter atuado como intermediário entre Vorcaro e Gilmar.
Carlos Melke entra pela origem financeira da operação
A presença de Carlos Melke nesse mapa decorre de outro ponto confirmado pela própria Aelbra. Segundo a instituição, o Banco Master concedeu linhas de financiamento que deram liquidez ao controlador da Aelbra para aquisição das ações. A nota identifica expressamente Melke e reconhece a origem da relação do Calêndula com o Master.
Até o momento, entretanto, não há evidência pública nas mensagens agora reveladas pela Folha e pelo Estadão de que Melke tenha participado das conversas entre Vorcaro e Chiquinho Feitosa sobre a ADC 81, o MEC ou Gilmar Mendes. Essa distinção é essencial.
Melke, até onde se sabe no momento, não tinha relação direta com Vorcaro. Sua interlocução era com Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro. Melke pertence à cadeia econômico-financeira que colocou Master, Calêndula e Aelbra em relação. As novas mensagens revelam outra cadeia — a de interlocução política, jurídica e regulatória —, mas ainda não demonstram participação pessoal de Melke nela.
A pergunta que falta responder
As revelações de Folha e Estadão mudam o estágio da investigação porque aproximam duas histórias que até agora podiam ser analisadas separadamente.
De um lado, estavam Master, Calêndula, Aelbra e os ativos de Medicina.
Do outro, estavam Vorcaro, ADC 81, STF, Gilmar Mendes e as articulações em torno da regulamentação dos cursos médicos.
Agora existe uma ponte documental entre esses dois mundos: o próprio Daniel Vorcaro encaminhou a Chiquinho Feitosa uma pessoa ligada à Ulbra, e o encontro aconteceu. Ao mesmo tempo, as mensagens identificadas pelo Estadão colocam a ADC 81 entre os assuntos tratados por Vorcaro e Feitosa.
Isso não responde à principal questão. Ao contrário, torna-a mais precisa:
o que a Ulbra pretendia naquele encontro, qual era o papel de Vorcaro na articulação e que providências Chiquinho Feitosa adotou depois de receber o interlocutor da universidade?
A resposta pode ser determinante para compreender até onde foi a participação do ecossistema Banco Master nos interesses relacionados aos cursos de Medicina da Ulbra.
Fontes: reportagens da Folha de S.Paulo e do Estadão, mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, registros oficiais do STF e nota pública da Aelbra.
Leia a reportagem da Folha de S.Paulo
Veja também A ULBRA NO NOVELO DO MASTER.


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