Novo CEO da Ulbra é genro de controlador do Genial, banco que saiu de operação para pagar trabalhadores
Tárik Alves de Deus assume a gestão nacional enquanto a Aelbra ainda tenta equacionar cerca de R$ 200 milhões em pendências trabalhistas. O Genial havia estruturado financiamento de até R$ 70 milhões e assessoraria a venda de ativos, mas a operação não avançou

Orestes de Andrade Jr.
A Universidade Luterana do Brasil anunciou, em 10 de setembro, Tárik Alves de Deus como novo CEO da instituição. Até então vice-presidente, ele passou a responder pela gestão e pela operação nacional da Ulbra. Segundo apuração do Poder RS, Tárik é casado com Marcela Bergqvist Riechert Deus, filha de Rodolfo Riechert, um dos controladores do Banco Genial. Documentos do Banco Central registram a concentração do controle societário do Banco Genial em Rodolfo Riechert e André Schwartz.
O parentesco ganha relevância porque o Genial teve papel central, até poucos meses atrás, na tentativa de solução para o passivo trabalhista da Aelbra, mantenedora da Ulbra. O banco participou da estruturação de um financiamento de até R$ 70 milhões destinado a antecipar pagamentos a trabalhadores e também atuaria como assessor financeiro na venda de ativos da instituição. A própria Aelbra confirmou publicamente a estruturação da operação. O negócio, porém, não se concretizou.
A nomeação de Tárik foi anunciada pelo presidente da Ulbra S.A., Carlos Augusto Melke Filho. No comunicado oficial, a universidade afirma que a mudança integra um processo de “fortalecimento da gestão”. A nota não faz referência ao Banco Genial nem ao parentesco do novo CEO com um de seus controladores.
Tárik é mestre em Direito, possui LLM em Direito Empresarial e já ocupava a vice-presidência da instituição. Também participou da criação da Ultec School, lançada em novembro de 2025 como braço voltado à tecnologia, inovação e empreendedorismo.
O acordo de até R$ 70 milhões
A crise trabalhista da Aelbra se arrasta há anos. A entidade ajuizou pedido de recuperação judicial em 6 de maio de 2019. O processamento foi deferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em dezembro daquele ano. Em fevereiro de 2024, a Justiça homologou modificações no plano e declarou encerrada a recuperação, embora decisões posteriores do Superior Tribunal de Justiça tenham registrado que essa decisão ainda não havia transitado em julgado.
Entre as principais pendências permaneceram os créditos trabalhistas. O plano previa o pagamento desses credores até setembro de 2025, com recursos provenientes, entre outras fontes, da venda de imóveis. O prazo venceu sem que a obrigação fosse integralmente cumprida. A inadimplência abriu espaço para novas negociações e para o risco de credores buscarem medidas mais severas contra a mantenedora. Foi nesse cenário que surgiu a operação estruturada com o Banco Genial.
Em 23 de outubro de 2025, a proposta foi aprovada em assembleia de credores e posteriormente homologada pela Vara Regional Empresarial de Novo Hamburgo. Em março de 2026, o Valor Econômico detalhou o desenho financeiro da operação.
O modelo previa uma primeira parcela de financiamento de até R$ 20 milhões, destinada principalmente ao pagamento inicial de até R$ 10,5 mil por credor. Uma segunda frente poderia alcançar R$ 50 milhões, completando um financiamento de até R$ 70 milhões.
Para o saldo dos créditos, os trabalhadores poderiam aderir a modalidades que envolviam desconto ou recebimento integral, com correção pela Selic e pagamento vinculado à alienação de ativos. O Genial também assessoraria a Aelbra nesse processo de venda. Como garantia do financiamento seriam utilizados imóveis da instituição que não estivessem comprometidos com outros credores.
À época, André Schwartz afirmou ao Valor Econômico que a proposta havia obtido 98,35% de aprovação dos credores participantes da votação.
O dinheiro não chegou
O primeiro pagamento deveria ocorrer até 15 de março de 2026. Não ocorreu. Em nota divulgada em 22 de abril, o Sinpro/RS atribuiu o atraso à gestão da Aelbra, afirmando que a mantenedora não havia concluído as providências documentais necessárias para colocar o acordo em funcionamento. O sindicato levantou ainda a hipótese de que a demora pudesse estar relacionada à resistência em disponibilizar patrimônio para venda dentro da operação estruturada com o banco. Trata-se de uma avaliação do sindicato, não de uma conclusão comprovada pela reportagem.
Naquele momento, o Sinpro/RS estimava os créditos trabalhistas pendentes em aproximadamente R$ 193 milhões. A entidade também apontava cerca de R$ 24 milhões ainda devidos no acordo relativo ao FGTS e afirmava que os recolhimentos correntes do fundo estavam irregulares desde julho de 2025. Nos meses seguintes, a operação com o Genial perdeu fôlego.
Em junho, segundo informações apresentadas durante a mediação trabalhista e divulgadas pelo Extra Classe, o banco desistiu de atuar como agente financeiro da operação destinada a viabilizar os pagamentos.
Em agosto, o Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul, o Sergs, foi ainda mais específico: informou que a compra dos créditos trabalhistas “não se concretizou por falta de garantias da Ulbra ao Banco”.
Ou seja: o acordo aprovado pelos credores existiu, foi homologado e chegou a ter uma arquitetura financeira definida. O dinheiro, no entanto, não chegou aos trabalhadores nos moldes previstos.
O impasse chega ao TRT-4
Diante da continuidade dos atrasos, o Sinpro/RS pediu, no fim de junho, a abertura de mediação no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. A primeira audiência ocorreu em 16 de julho, sob mediação da desembargadora Ana Luiza Heineck Kruse. O objetivo era retomar as negociações entre a Ulbra e as entidades representantes dos trabalhadores.
Em 6 de agosto, o vice-presidente do TRT-4, desembargador Cláudio Antônio Cassou Barbosa, pediu que a instituição reconsiderasse a contratação de professores por meio de pessoas jurídicas, prática questionada pelo sindicato. Uma audiência inicialmente marcada para 21 de agosto foi posteriormente adiada a pedido da própria Ulbra para possibilitar a participação de dirigentes com poder de decisão.
Quando a nova reunião ocorreu, em 4 de setembro, esses dirigentes não compareceram. A universidade foi representada por advogado e por integrante da gestão acadêmica, segundo relato do Sinpro/RS reproduzido pelo Extra Classe.
Na mediação, também passaram a ser discutidos outros focos de conflito, entre eles uma redução que pode chegar a 25% na remuneração de docentes, decorrente da alteração da quantidade de horas-aula remuneradas em determinados turnos, e a contratação de professores como pessoas jurídicas. Os sindicatos contestam essas medidas.
Sem o financiamento do Genial, a venda de ativos voltou ao centro da estratégia. A Ulbra passou a apontar a alienação de quatro instituições localizadas nas regiões Norte e Centro-Oeste como uma das alternativas para gerar recursos destinados às obrigações trabalhistas.
Seis dias depois da audiência de 4 de setembro, Tárik Alves de Deus foi anunciado como CEO.
O parentesco e as perguntas ainda sem resposta
O fato de o novo CEO ser genro de um dos controladores do Banco Genial não comprova, por si só, qualquer irregularidade, conflito de interesses ou retomada das negociações com o banco. Mas a relação familiar se torna jornalisticamente relevante diante do papel desempenhado pelo Genial na tentativa de financiamento da dívida trabalhista e na estruturação da venda de patrimônio da Aelbra.
Até junho, o banco ocupava duas posições estratégicas: poderia fornecer até R$ 70 milhões para os pagamentos e, simultaneamente, assessorava a instituição na alienação de ativos. Agora, um integrante da família de um de seus controladores assume o comando executivo da Ulbra.
A sequência dos fatos deixa questões objetivas ainda sem resposta: Tárik participou das negociações com o Genial enquanto era vice-presidente? A relação familiar foi informada aos credores e ao juízo que acompanha o processo? Existem atualmente negociações para que o Genial retome o financiamento ou participe da venda dos ativos? Caso o banco volte à operação, quais mecanismos de governança serão adotados para administrar potenciais conflitos de interesses?
Também não está esclarecido se a escolha de Tárik para o comando executivo possui alguma relação, direta ou indireta, com as negociações financeiras realizadas anteriormente com o Genial. Até a publicação desta reportagem, o Poder RS não obteve confirmação de que o banco tenha retomado as tratativas com a Aelbra.
O que está documentado é que a universidade ainda enfrenta um passivo trabalhista estimado, em setembro, em aproximadamente R$ 200 milhões; que a operação de até R$ 70 milhões estruturada com o Genial não se concretizou; que o banco deixou de atuar como agente financeiro; e que, poucos meses depois, Tárik Alves de Deus, genro de um dos controladores da instituição financeira segundo apuração do Poder RS, assumiu o comando executivo nacional da Ulbra. São fatos que, juntos, justificam as perguntas. Não autorizam, porém, antecipar as respostas.
O próprio Genial vive um momento delicado. Em agosto, o Banco Central multou a instituição e inabilitou André Schwartz (sócio de Rodolfo Riechert, sogro de Tárik) por quatro anos, decisão da qual o banco recorre.
Por ora, o que existe são mais de 10 mil credores sem pagamento, uma dívida de cerca de R$ 200 milhões e um novo CEO com laços familiares com o banco que saiu da mesa. Será que vai voltar?
O Poder RS está aberto a esclarecimentos da Ulbra, Tárik Alves de Deus, Grupo Genial e Rodolfo Riechert, especialmente para esclarecer as relações entre o novo CEO e o banco, sua eventual participação nas negociações anteriores e a existência de novas tratativas.
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