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Entre os credores e a Ulbra: documentos mostram os vínculos de Felipe Merino

Enquanto presidia uma associação de ex-empregados credores da Ulbra, Felipe Merino mantinha vínculos profissionais e institucionais com a universidade: registros apontam atuação como professor celetista, coordenação de projeto e presença regular nos veículos da instituição. Merino afirma que a coordenação não era remunerada.

Felipe Merino presidia uma associação de credores da Ulbra enquanto mantinha vínculos profissionais e institucionais com a universidade, mostram documentos e registros examinados pelo Poder RS

O professor e advogado Felipe Ferraz Merino tornou-se uma das vozes mais conhecidas entre os ex-empregados da Ulbra que aguardam o recebimento de créditos trabalhistas. Desde 2020, apresenta-se publicamente como presidente da Associação dos Ex-Empregados Credores da Ulbra, participa das discussões sobre a recuperação judicial da mantenedora e comenta propostas relacionadas ao pagamento das dívidas.

Ao mesmo tempo em que representava credores, porém, Merino manteve diferentes vínculos profissionais e institucionais com a própria Ulbra.

Ele foi professor da universidade, teve um programa regular na Ulbra TV, fazia comentários na Rádio Mix 107.1 FM — emissoras ligadas à instituição — e, em 2025, foi apresentado pela própria assessoria da universidade como coordenador da Central de Atendimento ao Docente.

Uma versão anterior de seu currículo Lattes também registrava vínculo com a Ulbra a partir de 2022 como professor celetista. Além disso, o nome de Merino aparece em documentação encaminhada pela própria instituição à Justiça em uma relação de trabalhadores vinculados à universidade.

A existência desses vínculos não demonstra, por si só, que Merino tenha atuado contra os interesses dos credores que representa. A questão central é outra: qual era a extensão de sua relação profissional e institucional com a Ulbra enquanto presidia uma associação de credores e quanto dessa relação era conhecido pelas pessoas que ele representava?

O Poder RS procurou Merino em 24 de setembro e encaminhou uma série de questionamentos. Ele pediu prazo até sábado, dia 26, para responder. Até o fechamento desta reportagem, em 27 de setembro, os esclarecimentos não haviam sido enviados.

Professor da Ulbra e representante de credores

Merino lecionou Direito na Ulbra por aproximadamente dez anos e foi demitido em janeiro de 2019. No ano seguinte, já aparecia publicamente como presidente de uma associação de ex-empregados credores da instituição. A relação profissional com a Ulbra, porém, não terminou definitivamente em 2019.

Em uma versão anterior de seu Currículo Lattes, Merino informava vínculo com a Ulbra desde 2022, como professor celetista. Em 8 de setembro de 2026, depois de ser questionado por credores sobre esse vínculo, o currículo foi alterado e o registro deixou de aparecer na versão on-line.

Há outro documento relevante. Em uma ação judicial envolvendo recursos da Ulbra, a própria instituição apresentou documentação na qual o nome de Merino aparece em uma relação de trabalhadores vinculados à universidade (documento abaixo). O dado ganha relevância porque, simultaneamente, ele presidia uma associação formada por ex-empregados que buscavam receber valores da própria Ulbra.


A coordenação anunciada pela universidade

Em outubro de 2025, uma notícia produzida pela assessoria da Ulbra apresentou Merino como coordenador da Central de Atendimento ao Docente da Ulbra RS. Segundo a publicação, ele também estava à frente de uma iniciativa que disponibilizava 200 bolsas gratuitas de pós-graduação para professores. A matéria deixou posteriormente de estar disponível no endereço original da Ulbra, mas permanece reproduzida pelo jornal A Folha Torres (sequência de imagens abaixo).


Quando passou a ser questionado por credores sobre essa função, Merino apresentou uma explicação em um grupo de WhatsApp. Ele afirmou que jamais havia trabalhado como coordenador remunerado da Ulbra e declarou que sua atuação no projeto das bolsas havia sido voluntária.

“Não trabalho e nunca trabalhei na função de coordenador remunerado na Ulbra”, escreveu. Segundo Merino, todo o trabalho remunerado que exerceu na instituição ocorreu exclusivamente como professor.

A resposta estabelece uma distinção importante: Merino não negou ter exercido uma coordenação; negou que essa atividade tenha sido remunerada.

Ele não respondeu ao Poder RS se a Central de Atendimento ao Docente e o projeto das bolsas eram a mesma estrutura, quais eram exatamente suas atribuições nem durante quanto tempo exerceu essas atividades.

Na Ulbra TV, Merino apresentava o programa chamado “Professor Merino Responde”

“Professor Merino Responde” na Ulbra TV e na Rádio Mix

A relação de Merino com a estrutura da universidade também alcançou os veículos de comunicação ligados à instituição. Na Ulbra TV, no final de 2023 ele ganhou um programa chamado “Professor Merino Responde”, com aproximadamente 15 minutos de duração. Na Rádio Mix 107.1 FM, eram veiculados comentários com o mesmo nome, de cerca de um minuto. Os conteúdos abordavam principalmente questões jurídicas. Ambos ficaram no ar até 30 de junho de 2024, limite da legislação eleitoral para apresentadores e comentaristas pré-candidatos às eleições municipais de 2024 se afastarem de seus programas de rádio e TV.

Segundo apuração do Poder RS, a abertura desses espaços ocorreu após um pedido direto de Carlos Augusto Melke Filho, então presidente da Aelbra, mantenedora da Ulbra. Os conteúdos eram gravados nos estúdios das emissoras, mas Merino não recebia remuneração da Ulbra TV nem da Rádio Mix por essas participações.

O espaço proporcionou ao professor exposição frequente nos veículos ligados à universidade justamente no período em que ele atuava junto aos credores e se aproximava da disputa eleitoral municipal de 2024.

Naquele ano, Merino concorreu a vereador em Canoas pelo Cidadania, usando o nome de urna “Professor Felipe Merino” e o número 23023. Obteve 483 votos e ficou como suplente. Sua prestação de contas eleitoral registra R$ 21.696,35 em receitas, dos quais R$ 11.696,35 provenientes de recursos próprios e R$ 10 mil repassados pela direção nacional do partido. O mesmo valor foi declarado em despesas eleitorais.


A dissidência entre os credores

Durante vários anos, Merino construiu forte presença entre os ex-empregados da Ulbra. Suas transmissões pelo YouTube tornaram-se uma fonte frequente de informações sobre a recuperação judicial, negociações e possíveis formas de pagamento dos créditos.

Com o passar do tempo, entretanto, parte dos credores passou a questionar sua atuação e sua proximidade com a direção da universidade. Um grupo dissidente, com aproximadamente 300 participantes, começou a discutir separadamente as propostas envolvendo os créditos trabalhistas e a condução da recuperação judicial. O universo total da dívida trabalhista, segundo o Sinpro/RS (Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul), envolve aproximadamente 3,5 mil credores, com valores que superam R$ 200 milhões.

As divergências entre parte desses credores e Merino se aprofundaram durante as negociações envolvendo instituições interessadas na aquisição ou antecipação dos créditos trabalhistas.

Banco Genial e Tor Créditos

Uma dessas discussões envolveu o Banco Genial. Credores dissidentes afirmam que Merino relatou ter mantido contatos com a instituição e que a associação presidida por ele participaria da interlocução com os trabalhadores, sem cobrança de honorários.

Posteriormente surgiu a proposta da Tor Créditos, empresa que passou a oferecer aos credores trabalhistas a aquisição antecipada de seus créditos pelo equivalente a 25% do valor nominal, com pagamento à vista.

Merino tratou publicamente da operação em seus canais. Em 26 de agosto de 2026, publicou uma entrevista gravada com Lizie Cristina Montanholi Kassab, única sócia-administradora da Tor Créditos.

Na conversa, foram abordados questionamentos feitos por credores sobre a empresa e sua relação com a Ulbra. Merino também disponibilizou aos interessados links para obter informações sobre a operação, consultar créditos e conhecer a proposta comercial.

Para integrantes do grupo dissidente, a forma como a operação foi apresentada representou uma defesa da alternativa oferecida pela Tor. A relação entre a Tor Créditos, seus responsáveis e pessoas ligadas à Ulbra já foi objeto de reportagem anterior do Poder RS.

>>> Quem está por trás da Tor? Empresa ligada ao campus da Ulbra oferece 25% por créditos trabalhistas


A interlocução com Carlos Melke

A relação de Merino com a direção da universidade não se restringia aos espaços públicos. Segundo fontes ligadas à direção da Ulbra ouvidas pelo Poder RS, Melke compartilhava com Merino informações sobre negociações envolvendo funcionários e credores e o via como um interlocutor junto aos ex-empregados. As mesmas fontes relatam que Merino frequentava o prédio 10 do campus de Canoas, onde funcionam estruturas da administração central, e mantinha comunicação direta com Melke por WhatsApp.

A disputa pela direção do Sinpro/RS

Em 2025, Merino também entrou diretamente na disputa pela direção do Sinpro/RS. Ele integrou a Chapa 2 – Renovação, protocolou pessoalmente a inscrição do grupo junto à Comissão Eleitoral. Durante a campanha, foi apresentado pelo Correio do Povo como candidato a diretor Jurídico do sindicato.

Na eleição, realizada entre 28 e 30 de outubro de 2025, que marcou a volta de uma disputa entre chapas após aproximadamente 15 anos, a Chapa 1 venceu com 7.998 votos, ou 77,94% dos votos válidos, enquanto a Chapa 2, da qual Merino fazia parte, obteve 22,06%, equivalentes a 2.264 votos.

Dois períodos na Prefeitura de Canoas

A trajetória profissional de Merino também inclui dois períodos de atuação na Prefeitura de Canoas, sempre por meio de cessão do Governo do Distrito Federal. Ele está vinculado ao DF desde 1998 como servidor efetivo, no cargo de Agente Socioeducativo da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania.

Em 25 de agosto de 2023, o Governo do Distrito Federal autorizou sua cessão para Canoas. O ato foi publicado em 29 de agosto e determinava que Merino exercesse uma função gratificada, símbolo FG-C, na Diretoria de Recursos Humanos da então Secretaria Municipal de Administração e Planejamento. O ônus financeiro da cessão cabia ao Município de Canoas. Registros da Prefeitura identificam posteriormente Merino como assessor técnico da Secretaria Municipal de Administração, lotado no gabinete do secretário. Ele permaneceu na administração até março de 2024.

Em 18 de junho de 2025, o Governo do Distrito Federal autorizou uma nova cessão de Merino para a Prefeitura de Canoas. O ato foi publicado em 23 de junho. Desta vez, o documento determinava sua atuação em uma função gratificada FG-3 de Assessor Especial 2 no Gabinete do Prefeito. O vínculo segue ativo. Em setembro de 2026, o Portal da Transparência de Canoas identificava Merino como Gerente de Programas — FG-3, adido, no Gabinete do Prefeito/Secretaria Municipal Geral de Governo.


“Não estou trabalhando em lugar nenhum”

Questionado pelo Poder RS sobre suas atividades profissionais atuais, Merino respondeu: “Não estou trabalhando em lugar nenhum”. Na mesma conversa, informou estar em tratamento de saúde. Os registros oficiais consultados pela reportagem, porém, mantinham ativos seus vínculos funcionais. Até o fechamento desta matéria, ele não havia esclarecido se estava formalmente afastado, licenciado ou em efetivo exercício das funções.

O ponto central: transparência dos vínculos

Os documentos e registros reunidos pelo Poder RS permitem estabelecer uma sequência objetiva: Merino representou publicamente credores da Ulbra enquanto, em diferentes períodos, manteve ou retomou atividades profissionais e institucionais ligadas à própria universidade.

Foi professor da Ulbra. Teve espaço regular na Ulbra TV e na Rádio Mix por solicitação da presidência da mantenedora. Foi apresentado oficialmente como coordenador da Central de Atendimento ao Docente. A publicação posteriormente deixou de estar disponível no site oficial. Uma versão anterior de seu currículo registrava vínculo celetista como professor a partir de 2022. E seu nome aparece em documentação apresentada pela própria instituição à Justiça em relação de trabalhadores ligados à universidade.

Paralelamente, presidiu uma associação de ex-empregados credores, participou das discussões sobre formas de pagamento da dívida e atuou como interlocutor em propostas envolvendo instituições financeiras e empresas interessadas nesses créditos.

Nenhum desses fatos, isoladamente, prova que Merino tenha prejudicado os credores ou cometido qualquer irregularidade. Mas a sobreposição desses papéis torna necessária uma resposta objetiva sobre a transparência dos vínculos e a independência de sua atuação.

A pergunta, portanto, não é se Felipe Merino manteve vínculos profissionais e institucionais com a Ulbra. Os documentos e registros examinados pelo Poder RS mostram que manteve.

A questão que permanece sem resposta é em que condições esses vínculos coexistiram com sua atuação à frente de uma associação de credores da própria Ulbra — e quanto dessa relação era conhecido pelas pessoas que ele representava.

O espaço permanece aberto para a manifestação de Felipe Ferraz Merino e das demais pessoas e instituições citadas.

MANIFESTAÇÃO DE FELIPE MERINO [Enviada às 16h50 de sexta-feira, 2 de outubro de 2026]:

“Desenvolvi trabalhos na ULBRA voluntários sem remuneração que consistuiu, no trabalho aos desabrigados da enchente em Canoas em 2024, num programa de TV e radio educativo em 2024 e doação de 200 bolsas de estudo de pós-graduação aos professores em 2025. Nunca trabalhei na ULBRA na função de coordenador de forma remunerada. Recebi perguntas de credores sobre a empresa Thor, fiz entrevista no Youtube, a proposta da empresa é pagar 60% do valor do crédito de forma parcelada, foi esclarecido pela empresa que na clausula contratual consta que se a empresa atrasar pagamento o contrato é cancelado e o trabalhador volta a ter o crédito integral com a ULBRA, essa clausula contratual consiste em garantia total em caso de não pagamento pela Thor. O assunto dessa matéria está sendo tratado num processo em segredo de justiça no qual é crime revelar ou compartilhar em redes sociais essas informações e a LGPD assegura o sigilo de dados pessoais que não podem ser divulgados. Sofri um infarto coloquei 7 stents no coração no momento estou de licença médica.”

NOTA DO EDITOR:

Nenhuma informação publicada nesta reportagem foi obtida de processo que tramita sob segredo de justiça. A matéria foi produzida a partir de documentos e informações de acesso público, entrevistas e manifestações de pessoas relacionadas aos fatos apurados.

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