Mensagens revelam que Vorcaro e Quadrado acompanharam STF e comemoraram decisão que beneficiou Medicina da Ulbra
Conversas obtidas pelo Valor Econômico mostram ex-sócios do Banco Master discutindo votos de ministros, possível interlocução política e o impacto do julgamento sobre créditos ligados à universidade
Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro acrescentam uma peça decisiva à investigação sobre as relações entre o Banco Master e a Ulbra. Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira, 1º, pelo Valor Econômico, Vorcaro e Maurício Quadrado, seu ex-sócio no Master, acompanharam diretamente o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a abertura de cursos de Medicina e comemoraram o resultado que beneficiava processos da universidade gaúcha.
A revelação avança sobre um terreno que o Poder RS vem investigando desde setembro: a conexão entre o Master, o fundo Calêndula, créditos bilionários da Aelbra, os cursos de Medicina e a ADC 81, relatada no STF pelo ministro Gilmar Mendes. A investigação anterior do Poder RS já havia mostrado a complexa rede financeira e judicial que colocou a universidade de Canoas no chamado “novelo do Master”.
Agora, pela primeira vez, mensagens atribuídas aos próprios Vorcaro e Quadrado mostram como eles acompanhavam o julgamento e qual era a expectativa econômica em torno do resultado.
“Ganhamos”
A mensagem mais direta foi enviada por Maurício Quadrado a Vorcaro na noite de 24 de maio de 2024, depois de encerrado o julgamento no Supremo. Segundo o Valor, Quadrado escreveu: “Acabou a votação das medicinas. Ganhamos”. A mensagem foi acompanhada por emojis de aplausos.
O STF havia analisado conjuntamente a ADC 81 e a ADI 7.187, processos que discutiam as regras para abertura de novos cursos de Medicina no país.
O Supremo manteve o chamamento público do Ministério da Educação como regra para a criação de novos cursos, mas estabeleceu uma transição para processos que já haviam avançado administrativamente por força de decisões judiciais.
A situação de cursos vinculados à Ulbra estava entre aquelas alcançadas pela modulação, segundo o Valor. A reportagem afirma que a Ulbra possui cerca de mil vagas de Medicina, aproximadamente 860 delas abertas a partir de decisões liminares, e que as mensalidades desses cursos estão na faixa dos R$ 10 mil.
Calêndula teria chegado a R$ 2 bilhões em créditos
A reportagem também traz uma dimensão financeira maior do que a conhecida até agora. Segundo o Valor, o Master passou a se interessar pela Ulbra por volta de 2020. Por meio do fundo Calêndula, foram adquiridos créditos de credores da universidade com deságio que, de acordo com a publicação, chegava a aproximadamente 90%.
Em 2023, ainda segundo o jornal, o Master, por meio do Calêndula, teria se tornado o maior credor da instituição, reunindo aproximadamente R$ 2 bilhões em valor de face, entre créditos trabalhistas e debêntures conversíveis em ações.
O número é superior aos R$ 1,5 bilhão que apareciam em documentos e informações anteriormente analisados pelo Poder RS. A diferença pode decorrer de momentos distintos da composição da carteira e precisa ser confrontada com os documentos da recuperação judicial.
Mas a informação mais relevante é outra. Segundo o Valor, a estratégia era utilizar esses créditos para adquirir os cursos de Medicina da Ulbra em um leilão no qual o fundo seria o único interessado.
A operação não avançou porque o MEC não admite a venda isolada de uma graduação de Medicina. Diante disso, Vorcaro teria tentado negociar a Ulbra inteira com outros grupos educacionais, sem sucesso.
Quatro meses antes: a conversa sobre ministros do STF
As mensagens reveladas pelo Valor mostram que o acompanhamento do julgamento começou muito antes do resultado. Em 20 de fevereiro de 2024, o processo estava empatado em três votos a três no plenário virtual, e Alexandre de Moraes havia pedido vista.
Quadrado relatou a situação a Vorcaro e afirmou que Moraes “parece que está do nosso lado”. Em seguida, escreveu que precisavam dos votos de Cristiano Zanin e Kassio Nunes Marques. É nesse momento que aparece o nome do ex-ministro Walfrido Mares Guia, empresário com atuação histórica no setor educacional.
Quadrado afirmou acreditar que Walfrido poderia ajudar em relação a Zanin e perguntou a Vorcaro se ele poderia verificar a possibilidade. Não há, porém, evidência apresentada pelo Valor de que essa aproximação tenha ocorrido.
O gabinete de Zanin afirmou que o ministro não possui relação com Walfrido e jamais conversou com ele sobre processos no STF. A assessoria de Walfrido também negou proximidade com Zanin e disse que o ex-ministro não foi procurado para tratar do julgamento.
“Informação de dentro do MEC”
Outra frase das conversas merece atenção especial. Ainda durante a discussão sobre o julgamento, Quadrado disse estar buscando reduzir os riscos e mencionou a movimentação da Afya, um dos principais grupos privados de educação médica do país e adversária da expansão dos cursos judicializados.
Segundo a mensagem reproduzida pelo Valor, Quadrado afirmou possuir “informação de dentro do MEC” sobre a atuação da empresa. A reportagem não identifica quem teria fornecido essa informação, nem apresenta evidência independente de que ela tenha efetivamente partido de alguém do Ministério da Educação. A Afya foi procurada pelo Valor e não comentou.
Vorcaro: “Cassio vai votar a favor. E Moraes”
Na resposta a Quadrado, Vorcaro não comentou a tentativa de aproximação com Zanin. Fez, entretanto, uma afirmação relevante sobre outros dois ministros: “Cassio vai votar a favor. E Moraes”. Depois acrescentou que a disputa seria apertada, mas demonstrou confiança no resultado.
A mensagem comprova que Vorcaro afirmava antecipadamente acreditar que Kassio Nunes Marques e Alexandre de Moraes votariam de maneira favorável à tese que interessava ao grupo. Ela não comprova que os ministros tenham antecipado seus votos ao banqueiro ou autorizado qualquer pessoa a falar em seus nomes.
Essa distinção é fundamental. Nunes Marques afirmou ao Valor que nunca votou em favor de Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele, jamais recebeu pedido do banqueiro e nunca autorizou terceiros a representá-lo. Disse conhecer Vorcaro, mas negou relação próxima ou conversas sobre processos.
O Valor informou também ter procurado o STF a respeito das referências a Alexandre de Moraes. Até a publicação da reportagem, não havia recebido resposta.
STF decide por 8 a 3
O julgamento terminou com oito votos acompanhando a tese do relator, Gilmar Mendes. Acompanharam o relator Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Luís Roberto Barroso, Flávio Dino, Kassio Nunes Marques, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Luiz Fux.
A decisão preservou a regra de que novos cursos de Medicina devem ser autorizados por meio de chamamentos públicos do MEC, mas criou uma transição para processos que já haviam alcançado determinado estágio administrativo.
Foi depois desse resultado que Quadrado enviou a Vorcaro a mensagem comemorando: “Ganhamos.”
Dois meses depois, créditos voltam à conversa
A conexão econômica fica ainda mais explícita em outra conversa revelada pelo Valor. Em agosto de 2024, cerca de dois meses depois do encerramento do julgamento, Quadrado voltou a tratar dos cursos da Ulbra com Vorcaro.
Segundo a reportagem, ele informou que haviam conseguido liminares relacionadas às operações de Medicina, que seriam lançados os vestibulares e mencionou também uma negociação com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Na mesma mensagem, Quadrado associou diretamente esse cenário à possibilidade de converter os créditos que possuíam. Vorcaro respondeu: “show”.
Esse diálogo é particularmente relevante porque coloca, na mesma conversa, os cursos de Medicina, as decisões judiciais e a conversão dos créditos acumulados pelo grupo ligado ao Master.
André Mendonça e seis cidades
O assunto ainda teria um novo capítulo. Em fevereiro de 2025, o ministro André Mendonça rejeitou recurso da União que questionava a abertura de cursos de Medicina da Ulbra em seis municípios.
A instituição havia obtido decisões judiciais para avançar com os cursos alegando demora do MEC na análise dos processos de credenciamento. Mendonça considerou que aqueles casos estavam abrangidos pela transição definida anteriormente pelo Supremo.
O elo que faltava no novelo
As novas mensagens são especialmente relevantes porque aproximam duas frentes que, até agora, apareciam separadas na investigação. De um lado estava a estrutura financeira: Master, Maurício Quadrado, Trustee, Calêndula e a aquisição de créditos bilionários relacionados à Aelbra. Do outro, a estrutura regulatória e judicial: cursos de Medicina, MEC, liminares e ADC 81 no Supremo.
A reportagem do Valor apresenta agora mensagens nas quais Vorcaro e Quadrado aparecem simultaneamente discutindo o julgamento, ministros do STF, informações atribuídas ao interior do MEC e, posteriormente, a conversão de seus créditos.
Isso não demonstra que ministros do Supremo ou integrantes do MEC tenham atuado irregularmente em favor de Vorcaro, Quadrado ou da Ulbra. Também não prova que qualquer voto tenha sido negociado.
Mas estabelece um fato que até agora não estava documentado dessa maneira: os dois empresários tinham interesse econômico relacionado aos ativos da Ulbra, acompanhavam diretamente o julgamento que poderia afetar esses ativos e comemoraram o resultado como uma vitória própria.
Procuradas pelo Valor, a defesa de Daniel Vorcaro e a assessoria de Maurício Quadrado não se manifestaram. Questionada sobre os efeitos da decisão do STF e suas vagas de Medicina, a Ulbra também informou que não se manifestaria.
A revelação adiciona uma nova camada ao “novelo do Master”, investigação publicada anteriormente pelo Poder RS. Se antes a pergunta era por que um banco e seus fundos acumularam créditos bilionários de uma universidade em recuperação judicial, as mensagens agora ajudam a delimitar um dos ativos que estavam no centro desse interesse: os cursos de Medicina da Ulbra.
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