Quem está por trás da Tor? Empresa ligada ao campus da Ulbra oferece 25% por créditos trabalhistas
Registrada no endereço do campus de Canoas, a Tor Créditos tem capital social de R$ 1 mil. A única sócia aparece em documento da Aelbra ao lado de ex-vice-presidentes da mantenedora, e o rastro da empresa leva a um contador ligado à Ulbra e ao grupo Melke

Orestes de Andrade Jr.
Professores e funcionários que aguardam há anos o pagamento de créditos trabalhistas ligados à Ulbra passaram a receber uma nova proposta: vender esses valores por 25% do total a que têm direito.
A oferta é feita pela Tor Créditos Ltda., empresa aberta em 27 de julho de 2026, pouco mais de um mês depois de o Banco Genial deixar a operação que previa financiar o pagamento de trabalhadores da Aelbra, mantenedora da universidade.
O caso foi levado pela assessoria jurídica do Sinpro/RS à audiência de conciliação realizada em 4 de setembro, no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4). Na ocasião, o sindicato classificou a iniciativa como forma de assédio financeiro contra credores em situação de fragilidade. Segundo a entidade, o capital social da empresa — de apenas R$ 1 mil — não é compatível, em tese, com operações desse porte.
A formalização da Tor como empresa é pública. O que continua sem transparência é quem financia, na prática, a aquisição desses créditos, qual a estrutura econômica por trás da operação e quem, de fato, se beneficia dela.

Empresa está registrada no endereço do campus da Ulbra
Conforme cadastro empresarial consultado pelo Poder RS, com base em dados da Receita Federal, a Tor Créditos Ltda. está registrada na Avenida Farroupilha, 8001, prédio 10, em Canoas — o mesmo endereço do campus central da Ulbra. Segundo o Sinpro/RS, um dos endereços vinculados ao CNPJ da empresa corresponderia a uma sala contígua à utilizada pelos atuais gestores da universidade. A informação foi apresentada pelo sindicato na audiência de conciliação.
A única sócia-administradora da Tor é Lizie Cristina Montanholi Kassab. Sua relação profissional com integrantes da família Melke, porém, é anterior à criação da empresa e está documentada há pelo menos cinco anos.
Em publicação judicial de 19 de outubro de 2021, Lizie aparece como advogada de Carlos Augusto Melke e Tereza Cristina Palhano Melke, ao lado de João Pedro Palhano Melke, em processo que tramitava no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. O registro demonstra que sua relação profissional com a família Melke não se restringe ao período atual nem a uma participação pontual em documentos da Aelbra.
Há registro ainda anterior. Em publicação do Diário da Justiça de São Paulo, de junho de 2020, Lizie, João Pedro Palhano Melke e Carlos Augusto Melke Filho aparecem conjuntamente entre os advogados de um processo.
A conexão se torna ainda mais direta em maio de 2025. Em um convênio educacional da Aelbra, Lizie não apenas aparece como “validadora”: o registro eletrônico do documento mostra que ele foi criado por um operador utilizando o e-mail lizie.kassab@aelbra.com.br. Esse mesmo operador incluiu Carlos Augusto Melke Filho e Antonio Carlos Romanoski na lista de assinaturas como representantes legais. Tárik Alves de Deus e João Pedro Palhano Melke foram incluídos como validadores.
Ou seja, os registros encontrados pelo Poder RS mostram uma relação profissional documentada de Lizie com os Melke ao menos desde 2021 e uma atuação, em 2025, utilizando endereço eletrônico do domínio da própria Aelbra. Esses vínculos antecedem a constituição da Tor Créditos, aberta somente em julho de 2026.

Tárik Alves de Deus seria nomeado CEO da Ulbra em 10 de setembro, seis dias após a audiência em que a atuação da Tor foi formalmente questionada pelo sindicato.
É importante registrar que o convênio educacional citado não trata de créditos trabalhistas. Também não há, até o momento, prova documental de participação societária de Tárik Alves de Deus, João Pedro Melke ou Carlos Augusto Melke Filho na Tor Créditos.
O que há, portanto, não é apenas uma coincidência de endereço. Há uma relação profissional anterior documentada entre Lizie e integrantes da família Melke, seguida de atuação em documento da Aelbra com e-mail do domínio da própria mantenedora e, posteriormente, da instalação da Tor Créditos dentro do campus da Ulbra. Nenhum desses fatos prova, isoladamente, participação dos Melke na Tor, mas o encadeamento amplia a necessidade de esclarecer a autonomia da empresa, a origem de seus recursos e sua relação com a administração da devedora.
O nome de Ailson José Vier amplia a rede de vínculos
Outro nome aparece no cruzamento dos registros levantados pelo Poder RS: Ailson José Vier. Documentos cadastrais consultados pela reportagem indicam que um e-mail de Ailson Vier está vinculado ao cadastro da Tor Créditos. Segundo a apuração do Poder RS, o mesmo contato também aparece relacionado à Ulbra e a diferentes CNPJs vinculados ao grupo de Carlos Augusto Melke Filho.

A relação de Vier com a Aelbra é documental (imagem acima). Em demonstrações contábeis da mantenedora publicadas no Jornal do Comércio, ele aparece identificado como “AILSON JOSÉ VIER – Contador – CRC/RS 61.468”, imediatamente abaixo da identificação de Carlos Augusto Melke Filho, diretor-presidente, e Antônio Carlos Romanoski, diretor vice-presidente. O documento deixa clara sua atuação profissional na estrutura contábil da companhia.
Ailson também aparece relacionado a Lizie Kassab no Instituto Vitalis Ulbra de Educação, Gestão e Atenção à Saúde, outra entidade sediada no campus da Ulbra. Nos registros levantados pela reportagem, Vier ocupa função de diretor, enquanto Lizie está ligada à administração da entidade.
O Instituto Vitalis está igualmente localizado na Avenida Farroupilha, 8001, prédio 10, e, segundo a apuração do Poder RS, funciona em uma sala próxima à indicada para a Tor Créditos. A proximidade física, portanto, se soma às conexões cadastrais e profissionais já identificadas.
Nada disso demonstra, isoladamente, que Ailson seja sócio oculto, financiador ou controlador da Tor. O que os registros demonstram é que ele não é um personagem estranho à estrutura da Aelbra e da Ulbra — e que seu contato aparece no cadastro da empresa criada para comprar créditos de trabalhadores da própria instituição.

O que Lizie disse em vídeo e o que os registros indicam
Em vídeo publicado no YouTube, Lizie Kassab afirma que trabalhou com os Melke há cerca de dez anos e descreve Ailson Vier como “apenas um contador de confiança”. Os documentos e registros empresariais consultados pela reportagem, porém, apontam para vínculos mais recentes e mais próximos.
Além de o e-mail de Ailson constar no CNPJ da Tor, ele também aparece associado ao Instituto Vitalis Ulbra, ocupando o cargo de diretor, no mesmo ambiente físico do campus, ao lado de Lizie Kassab. Assim, a documentação disponível contradiz a ideia de que se trataria apenas de uma relação remota ou episódica com o grupo hoje no comando da universidade.
Por isso, a questão central deixa de ser apenas a existência de uma oferta por 25% dos créditos e passa a envolver quem está por trás da operação, qual a real autonomia da empresa e qual o nível de proximidade entre seus articuladores e a estrutura de gestão da Ulbra.
Por que a oferta de 25% chama atenção
A controvérsia ganha peso por causa do tamanho do passivo. Os créditos trabalhistas em discussão somam mais de R$ 200 milhões e envolvem cerca de 3,5 mil credores atualmente, eram mais de 10 mil credores no contexto da recuperação judicial da Aelbra, pedida em 2019. Pelo plano então em vigor, esses débitos deveriam ter sido quitados até setembro de 2025, com recursos obtidos principalmente por meio da venda de imóveis. Isso não ocorreu.
Para enfrentar essa inadimplência, a Aelbra chegou a estruturar uma operação com o Banco Genial, aprovada por credores e homologada pela Vara Empresarial de Novo Hamburgo. O modelo previa um pagamento inicial de até R$ 10,5 mil por credor. Para o saldo remanescente, os trabalhadores poderiam optar entre modalidades com desconto negociado ou recebimento integral corrigido pela Selic, à medida que ativos fossem vendidos. Essa alternativa, porém, perdeu força quando o Genial deixou a operação em junho.
Sem essa via, a administração da Ulbra passou a apresentar como saída a venda de quatro instituições de ensino nas regiões Norte e Centro-Oeste. Segundo manifestação de advogados da universidade na audiência de setembro, o processo para essa alienação estaria em andamento.
Se essas vendas forem efetivamente concluídas, os créditos trabalhistas voltam a ter perspectiva de pagamento em condições potencialmente superiores à oferta hoje apresentada a parte dos credores. Na prática, quem cede agora seu crédito por 25% do valor nominal abre mão da diferença entre o que recebe de imediato e o que poderia eventualmente receber adiante. Sem juros.
A cessão de crédito não é ilegal. O problema é a opacidade
A compra de créditos trabalhistas com deságio não é, por si só, ilegal. Trata-se de uma prática conhecida no mercado. O problema, neste caso, é outro: quem está comprando, com base em quais informações, com qual funding e com que grau de proximidade em relação ao devedor.
Quando uma empresa recém-criada, com capital social de R$ 1 mil, oferece aquisição de créditos de uma massa de trabalhadores que espera há anos por pagamento, surgem dúvidas objetivas. Essas dúvidas se tornam ainda mais relevantes quando:
- a empresa está registrada no endereço do campus da devedora;
- sua sócia-administradora aparece em documento da Aelbra ao lado de ex-dirigentes da mantenedora;
- o e-mail vinculado ao CNPJ remete a um profissional ligado à Ulbra e a empresas do grupo Melke;
- esse mesmo profissional aparece associado à sócia da Tor em outra estrutura instalada dentro da universidade.
A questão central é saber se existe, ou não, uma assimetria de informação. Em outras palavras: uma empresa situada no entorno da gestão da devedora poderia ter acesso privilegiado a dados sobre o futuro da venda de ativos, da liquidação dos créditos ou da estratégia financeira da mantenedora? Até agora, essa pergunta permanece sem resposta pública. Mas já ligou o sinal de alerta nos ex-trabalhadores da Ulbra que têm créditos a receber.
Perguntas que seguem em aberto
A existência da Tor Créditos e a oferta de compra dos créditos por 25% levantam uma série de questões ainda não esclarecidas:
- Quem financia, de fato, a Tor Créditos para comprar créditos trabalhistas?
- Qual é o papel de Ailson José Vier na estrutura da empresa e na operação?
- Por que o e-mail de Ailson Vier aparece vinculado ao CNPJ da Tor?
- Qual é o vínculo atual de Lizie Kassab com a Aelbra, a Ulbra e o Instituto Vitalis?
- A Ulbra ou a Aelbra autorizaram o uso de espaço no campus por parte da Tor?
- A atual gestão da universidade tinha conhecimento das propostas apresentadas aos credores?
- Quantos trabalhadores já venderam seus créditos?
- Há alguma relação formal ou informal entre a Tor e pessoas ligadas à administração da mantenedora?
- Quem são os financiadores reais da operação?
Até a publicação desta reportagem, não há prova documental de participação direta de atuais dirigentes da Ulbra no quadro societário da empresa que faz as ofertas. Mas a coincidência de endereço, o vínculo documental da sócia com a Aelbra, a presença do e-mail de Ailson Vier no cadastro da Tor, a ligação entre Vier e Lizie no Instituto Vitalis e o momento em que a empresa surge — logo após a saída do Genial da operação — tornam o caso de inequívoco interesse público.
O Poder RS segue aberto a esclarecimentos da Ulbra, Aelbra, Tárik Alves de Deus, João Pedro Melke, Carlos Augusto Melke Filho, Ailson José Vier e Lizie Cristina Montanholi Kassab para que expliquem os vínculos entre si, a origem dos recursos da Tor Créditos, o uso de endereço dentro do campus e o conhecimento da gestão sobre as propostas apresentadas aos trabalhadores.
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