Opinião: a onda Zucco redesenha o mapa político do Rio Grande do Sul
Vitória no primeiro turno não apenas leva o PL ao Piratini: resultado enfraquece o centro que governou o Estado nos últimos oito anos e transforma Zucco na principal liderança da direita gaúcha
Orestes Junnior | Editor do Poder RS
A eleição de Luciano Zucco (PL) no primeiro turno vale mais do que uma troca de governador. Com cerca de 58% dos votos válidos, contra 32% de Juliana Brizola (PDT), ele conquistou o Palácio Piratini por uma margem que poucas pesquisas anteciparam. Numa disputa que parecia caminhar para o segundo turno, Zucco concentrou o voto da direita e transformou a eleição em uma demonstração de força.
O resultado traz ainda outra mensagem. O centro político, que governou o Rio Grande do Sul nos últimos oito anos sob Eduardo Leite, sofreu uma derrota devastadora. Gabriel Souza (MDB), vice-governador e candidato da continuidade, terminou com apenas 8,4% dos votos válidos, talvez o dado mais importante depois da vitória do próprio Zucco. O eleitor gaúcho não escolheu apenas entre direita e esquerda: rejeitou a alternativa oferecida pelo grupo que ocupava o Piratini. O espaço que PSDB, MDB e aliados dominaram por anos chega ao fim desta eleição profundamente reduzido.
Zucco sai das urnas como a principal liderança eleitoral da direita gaúcha. Com mais de 3,5 milhões de votos, superou a votação de Tarso Genro em 2010 e firmou o maior número de votos já recebido por um governador eleito em primeiro turno no estado. Só Tarso e Zucco resolveram a disputa pelo Piratini na primeira etapa neste século. A trajetória reforça o peso do resultado: em 2018, na estreia em cargo eletivo, foi o deputado estadual mais votado, com 166.747 votos; em 2022, o deputado federal mais votado, com 259.023; agora, o governador recordista de votos no primeiro turno. Em oito anos, passou de estreante a protagonista, e essa força deve ultrapassar o Executivo, influenciando alianças, a relação com a Assembleia e as disputas futuras no estado.
A vitória não ficou restrita ao Piratini. Os dois candidatos ao Senado apoiados por Zucco, Marcel van Hattem (Novo), com 30,12%, e Ubiratan Sanderson (PL), com 30,08%, conquistaram as duas vagas em disputa e levam a Brasília dois aliados diretos do governador eleito. Nas proporcionais, o PL também cresceu: elegeu 8 das 31 cadeiras gaúchas na Câmara, dobrando a bancada de 2022, e 12 das 55 vagas da Assembleia, formando a maior bancada da próxima legislatura. É exatamente a meta que o partido havia traçado para 2026.
Zucco chega ao governo no centro de uma estrutura política bem mais ampla que sua vitória pessoal. Ao mesmo tempo, 12 deputados representam menos de um quarto da Assembleia. A força será grande, mas a governabilidade continuará dependendo da manutenção da coalizão e da construção de maiorias com outras siglas.
Vitórias dessa dimensão, no entanto, geram expectativas do mesmo tamanho. A partir de janeiro, Zucco terá de converter capital eleitoral em capacidade administrativa. Reconstrução do Estado após as enchentes, infraestrutura, concessões, segurança, desenvolvimento econômico, agronegócio e equilíbrio fiscal estarão na mesa desde o primeiro dia. O eleitor lhe entregou algo raro na política gaúcha: um mandato que começa sem dúvida sobre sua legitimidade popular. A eleição redesenhou o mapa político do Rio Grande do Sul, e Zucco terá quatro anos para provar que a onda que o levou ao Piratini consegue virar governo.
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