Investigação alcança executivo do Genial, banco que participou de negociações com a Ulbra
Humberto Tupinambá é alvo da Operação Crédito Oculto, que investiga suposta lavagem de dinheiro no setor de combustíveis; ação também alcança Antonio Carlos Freixo Júnior, empresário ligado ao caso Master. Genial participou recentemente de uma tentativa de financiar pagamentos trabalhistas da Aelbra e de estruturar a venda de ativos da universidade

Uma operação deflagrada na manhã desta quinta-feira, 24, acrescenta um novo personagem ao complexo mapa financeiro que circunda a Ulbra. O Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal fizeram buscas contra Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-sócio e ex-diretor do Banco Genial, instituição que participou recentemente de uma tentativa de equacionar as dívidas trabalhistas da Aelbra, mantenedora da Universidade Luterana do Brasil.
Tupinambá é um dos alvos da Operação Crédito Oculto, terceira fase da Carbono Oculto, investigação sobre uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro relacionada ao setor de combustíveis. A operação alcança 13 pessoas e 19 empresas. Segundo a Receita Federal, uma das empresas financeiras envolvidas nas operações investigadas movimentou R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
A coincidência de personagens não permite concluir que a operação tenha qualquer relação com a Aelbra ou com a Ulbra. Até o momento, não há evidência pública de que os negócios entre Genial e Aelbra estejam sob investigação na Crédito Oculto.
Mas o episódio ganha relevância para o Rio Grande do Sul porque o Genial passou a ocupar posição importante na tentativa de reorganização financeira da mantenedora da Ulbra — primeiro como potencial financiador de até R$ 70 milhões para os pagamentos trabalhistas e também como assessor na alienação de ativos.
Quem é Humberto Tupinambá
Segundo registros empresariais consultados pelo Times Brasil/CNBC, Humberto Arthur Tupinambá Neto, de 55 anos, foi diretor e sócio do Banco Genial de setembro de 2012 até maio de 2026, quando a instituição ainda operava sob o nome Brasil Plural. Também aparece como sócio da Plural Partners, diretor da Genial Investimentos e administrador da Plural Gestão de Recursos.
Nesta quinta-feira, ele e os irmãos André e Bruno Tupinambá foram alvo de mandados de busca. O Gaeco sustenta que Humberto Tupinambá e o advogado Rogério Garcia Peres teriam participado da construção de uma estrutura financeira destinada a ocultar os verdadeiros controladores da aquisição da distribuidora de combustíveis Terrana.
Segundo os investigadores, os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, teriam utilizado uma arquitetura envolvendo empresas e instrumentos financeiros para esconder sua participação no negócio. A aquisição da distribuidora pode ter alcançado R$ 153 milhões.
Mensagens encontradas no celular de outro investigado são apontadas como parte das evidências reunidas pelo Gaeco. A investigação afirma ainda que o envolvimento do Genial não teria se limitado a uma operação financeira. Essas são acusações dos investigadores, ainda sujeitas ao contraditório e à apuração judicial. Ser alvo de busca e apreensão não significa condenação.
Do Master à nova operação
Há outro personagem que aproxima a operação desta quinta-feira do universo já conhecido do Banco Master. Também é alvo das buscas Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, proprietário da Entre Investimentos. Freixo aparece nas investigações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e firmou acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República, segundo reportagens publicadas nesta quinta-feira.
A Entre Investimentos aparece em uma operação na qual recursos de Vorcaro teriam sido enviados para financiar Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Reportagens sobre a operação apontam um montante de US$ 12,33 milhões.
É justamente a presença simultânea de Tupinambá, ligado ao Genial, e Freixo, personagem do caso Master, que cria um novo ponto de atenção.
Isso não significa, porém, que Genial e Master sejam parte de uma mesma estrutura ou que exista relação entre a operação desta quinta-feira e os negócios da Aelbra. O que existe, até agora, é uma interseção de personagens em investigações distintas.
O Genial entrou na equação da Ulbra
A importância do Genial para a situação da Ulbra começou a crescer durante as dificuldades da Aelbra em cumprir os pagamentos previstos aos credores trabalhistas. A dívida superior a R$ 200 milhões envolve mais de 3,5 credores.
Segundo histórico divulgado pelo Sinpro/RS, as negociações com o banco ganharam corpo entre junho e setembro de 2025. A proposta chegou a prever recursos para aquisição de créditos trabalhistas e uma estrutura financeira envolvendo deságio e financiamento da Aelbra.
Posteriormente, a própria Aelbra informou que havia submetido à Justiça uma estrutura de DIP/exit financing de até R$ 70 milhões com o Banco Genial, destinada principalmente à antecipação de pagamentos aos trabalhadores e à geração de liquidez para o processo de recuperação.
A operação previa dois blocos de recursos: até R$ 20 milhões relacionados aos credores que receberiam inicialmente R$ 10,5 mil e até R$ 50 milhões para o restante da estrutura. O Genial também atuaria como adviser na venda de ativos da Aelbra, conforme declarou o CEO do banco, André Schwartz.
Os sindicatos questionaram aspectos da proposta, especialmente os deságios aplicáveis aos créditos dos trabalhadores. A negociação acabou não avançando nos termos inicialmente projetados. Reportagem publicada pelo Poder RS nesta semana mostrou que o Genial saiu da operação destinada ao pagamento dos trabalhadores, embora a relação anterior tenha adquirido novo interesse depois da mudança no comando da Ulbra.
CEO do Genial foi condenado pelo Banco Central
A entrada do Genial na recuperação da Aelbra ganha outro elemento de contexto. Em 12 de agosto, pouco mais de um mês antes da Operação Crédito Oculto, o Banco Central condenou o CEO da instituição, André Schwartz, à inabilitação por quatro anos para atuar no sistema financeiro e ao pagamento de R$ 516 mil em multas.
A decisão foi tomada em processo administrativo sancionador que investigou operações de câmbio realizadas principalmente entre 2020 e 2021. O próprio Banco Genial recebeu multas que somam aproximadamente R$ 21,6 milhões por irregularidades relacionadas a operações cambiais, controles de prevenção à lavagem de dinheiro e comunicação de operações suspeitas ao Coaf.
O Genial contesta as condenações, afirma que cumpriu as regras vigentes à época dos fatos e anunciou recurso. A instituição também destacou que 21 acusações foram afastadas durante o julgamento.
O novo CEO e a família controladora do Genial
Em 10 de setembro, a Ulbra anunciou Tárik Alves de Deus como seu novo CEO nacional. Segundo apuração já publicada pelo Poder RS, Tárik é casado com Marcela Bergqvist Riechert Deus, filha de Rodolfo Riechert, um dos controladores do Banco Genial. Documentos do Banco Central consultados na apuração registram o controle da instituição financeira por Rodolfo Riechert e André Schwartz. Assim, o banco que havia negociado uma operação financeira de até R$ 70 milhões com a mantenedora da Ulbra tem vínculo familiar com o atual CEO da universidade.
Até agora, não há evidência de que Humberto Tupinambá tenha participado pessoalmente das negociações entre Genial e Aelbra.
Antes do Genial, o Master
A entrada do Genial ocorreu depois de outra relação financeira que hoje está no centro das investigações nacionais: a da Aelbra com o Banco Master e o FIDC Calêndula. A própria Aelbra reconheceu publicamente que o Calêndula, associado ao Master, participou de sua recuperação judicial. Em determinado momento, o fundo seria o stalking horse para aquisição de uma unidade da Faculdade de Medicina, assumindo parte relevante do endividamento da mantenedora. A operação não foi concluída.
Em julho de 2023, o Calêndula foi o único inscrito no leilão da Faculdade de Medicina, cujo valor mínimo era de R$ 700 milhões. Posteriormente, o STJ suspendeu a alienação. O plano substitutivo de recuperação passou a prever outra solução, envolvendo créditos do Calêndula superiores a R$ 1,5 bilhão e a possibilidade de conversão em participação societária. Em maio de 2025, o fundo notificou a Aelbra solicitando a conversão de debêntures em ações. Um mês depois, pediu a suspensão da conversão.
Esse histórico colocou sucessivamente Master/Calêndula e Genial em posições relevantes na busca de soluções financeiras para a mantenedora da Ulbra.
Uma nova coincidência que precisa ser investigada
A Operação Crédito Oculto não estabelece, até este momento, qualquer vínculo criminal entre o que está sendo investigado em São Paulo e a recuperação da Aelbra. O que os fatos mostram é uma sequência que merece escrutínio.
Primeiro, o Banco Master, posteriormente liquidado e colocado no centro de uma das maiores investigações financeiras recentes do país, financiou operações relacionadas à mudança de controle da Aelbra e, por meio do Calêndula, tornou-se credor relevante e tentou adquirir a Medicina da instituição.
Depois, o Banco Genial entrou na tentativa de financiar o pagamento dos trabalhadores e passou a participar da estruturação da venda de ativos.
Agora, um sócio e diretor de longa data do Genial aparece como alvo de uma operação contra suposta lavagem de dinheiro, ao lado de Antonio Carlos Freixo Júnior, personagem diretamente relacionado às investigações envolvendo Vorcaro e o Master.
Há, portanto, um novo ponto de contato entre personagens dos dois ambientes financeiros, mas ainda não uma ponte comprovada entre os negócios investigados na Crédito Oculto e a Aelbra.
A pergunta central aida sem resposta: Humberto Tupinambá teve alguma participação na estruturação, aprovação ou negociação das operações do Banco Genial com a Aelbra? O Poder RS seguirá acompanhando o caso.
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