Festival Altos Montes brinda a excelência dos vinhos de Flores da Cunha e Nova Pádua
Com 105 rótulos e mais de 500 pessoas no Centro de Eventos da Vinícola Luiz Argenta, evento combinou grandes descobertas, gastronomia do Clô Restaurante e uma experiência marcada pela elegância
Por Orestes Junnior | Jornalista e Sommelier

Promovido pela Associação Altos Montes, presidida por André Tonet, o 7ª edição do Festival Altos Montes Vinhos e Espumantes, realizada no sábado, 19 de setembro, no Centro de Eventos da Vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, reuniu mais de 500 pessoas em uma tarde/noite chuvosa, numa demonstração do interesse despertado pelo encontro. O público, aliás, esperou ansioso a abertura das portas pontualmente às 17h. Em minutos, o salão estava repleto. Para quem esteve lá, ficaram as descobertas na taça, a gastronomia excepcional e a impressão de um evento pensado com cuidado.
Do Sauvignon Blanc da Fante à vitalidade do Cabernet Franc 2018 da Luiz Argenta, passando pelo mistério do Enigma, a noite ofereceu boas razões para seguir explorando os vinhos apresentados pelos produtores dos Altos Montes. Tudo acompanhado por ótima gastronomia e atrações musiciais no volume certo.
Um Sauvignon Blanc de perfil vegetal e mineral foi minha maior surpresa no evento. O Cordelier, da Fante, destacou-se em uma noite com 105 rótulos e mais de 500 pessoas, que enfrentaram a chuva para participar de um encontro de altíssimo nível. Elaborado com uvas de Pinheiro Machado, na Serra do Sudeste, o branco chamou atenção pela expressão mais vegetal e mineral, com um toque de ervas finas, menos centrada na exuberância tropical que encontro com frequência nos Sauvignon Blancs brasileiros. Um belíssimo vinho, também com uma relação entre qualidade e preço que considero muito boa. Sem passagem por carvalho, é um vinho moderno, com corpo médio, frutado, acidez equilibrada, tanto que não demonstra ter 13% de álcool, bem ao estilo do que o consumidor busca hoje.
A descoberta traduz uma das virtudes do festival: permitir que cada visitante encontre seus próprios destaques entre diferentes estilos, safras e propostas. A edição reuniu 21 vinícolas, com estações de degustação concebidas para favorecer a circulação e aproximar o público de quem produz.
Elegância também à mesa
O encontro teve sofisticação e bom gosto compatíveis com a região dos Altos Montes e com a Luiz Argenta. O espaço e a presença de um público elegante contribuíram para uma atmosfera especialmente agradável. A gastronomia do Clô Restaurante mereceu destaque próprio. Das entradas aos pratos principais, a comida estava espetacular, com preparações extremamente saborosas. Em uma noite com tantas opções de vinhos, a cozinha conseguiu despertar atenção e participar da experiência com personalidade. O formato volante foi pensado para acompanhar a circulação dos convidados, permitindo conciliar a gastronomia com as descobertas nas taças e as conversas entre uma degustação e outra.

Outro acerto foi a taça de cristal personalizada Altos Montes. Além de muito bonita, mostrou-se, na minha avaliação, adequada tanto aos brancos quanto aos tintos. Segundo a organização do evento, o modelo exclusivo foi desenvolvido para os vinhos da região e oferecido aos participantes para levar para casa. Uma lembrança que combina identidade e utilidade.
10 destaques da noite
Entre os vinhos que provei, estes foram meus destaques. A seleção é pessoal e reúne minhas impressões da noite sobre os rótulos. Importante: não provei todos os 105 rótulos, é impossível em uma noite e sem cuspideira (uma pequena falha da organização do evento). Então, se algum rótulo de destaque não está aqui, pode ser porque não foi degustado. E entre os 45 rótulos que provei, todos tinham boa qualidade. Os comentários abaixo são sobre aqueles que, por algum motivo, agradaram pu emocionaram mais este jornalista e sommelier.

Cordelier Sauvignon Blanc — Fante
A principal descoberta. Além da origem em Pinheiro Machado e da ausência de madeira, tem notas de grama cortada, aspargo, folha de tomate e ervas finas, com corpo médio e acidez equilibrada. Na taça que provei, foram a expressão vegetal e a sensação mineral que fizeram a diferença. É um vinho que merece ser conhecido por quem procura outras interpretações brasileiras da variedade, com uma relação qualidade-preço muito interessante.

Luiz Argenta Cabernet Franc 2018
Oito anos depois da safra, estava espetacular e muito vivo. Um grande vinho, cuja vitalidade foi tão marcante quanto a maturidade. Tem estrutura, persistência e um conjunto aromático de frutas vermelhas, especiarias e notas ligadas à madeira. Na garrafa de 2018, meu destaque foi justamente perceber que o tempo não havia apagado sua energia. Uma bela demonstração do interesse que os tintos brasileiros podem oferecer depois de alguns anos de evolução. E vai longe ainda. Um vinhaço!
Enigma — Casa Eva
O vinho ícone da Casa Eva chamou atenção pela grande complexidade e por uma particularidade que justifica o nome: a vinícola não revela a composição do corte. O mistério faz parte da proposta, mas foram as várias camadas na taça que me conquistaram. Entre os tintos da noite, o Enigma esteve entre aqueles que despertaram mais curiosidade e vontade de voltar a provar. E o rótulo é belísismo, aliás, como todos os rótulos dos vinhos da Casa Eva.
Boscato Cave Merlot 2023 — IP Altos Montes
É o rótulo que conecta diretamente meus destaques à lista dos 15 vinhos com Indicação de Procedência anunciados pela organização. Tem aromas que remetem a frutas vermelhas e especiarias, corpo pronunciado, taninos maduros e boa duração em boca. Um Merlot que esteve entre meus preferidos e traz a origem certificada da região dos Altos dos Montes. Representa muito bom os tintos desta IP, com um mentol característico do terroir.
Casa Venturini Chardonnay Reserva 2025
A Venturini é sinônimo de Chardonnay. E este da 2025 tem uvas da Campanha Gaúcha, fermentação em inox com aduelas de carvalho (olha o detalhe), sem realizar fermentação malolática, o que ajuda a preservar o frescor e a vivacidade da fruta, e amadurece com bâtonnage (o revolvimento das borras finas do vinho) a cada 20 dias, totalizando 6 meses de contato. o resultado é maior volume, cremosidade e complexidade ao paladar. Combina notas de abacaxi e pêssego com notas florais e de baunilha, com acidez viva.
Famiglia Veadrigo Chardonnay Gran Reserva
Os 15 meses em barricas de carvalho francês ajudam a explicar a proposta deste grande vinho branco. Notei aromas de frutas cristalizadas, camomila e baunilha, com textura untuosa e frescor. Uma interpretação de Chardonnay que combina o trabalho de maturação com a presença da fruta e que mereceu lugar entre meus destaques.
Fabian Nature
Elaborado com Chardonnay e Pinot Noir pelo método tradicional, tem segunda fermentação na própria garrafa. Fica pelo menos 30 meses em contato com as leveduras e não recebe licor de expedição. O tempo de elaboração e o estilo nature são elementos centrais de sua proposta. Foi um dos meus destaques entre os espumantes, categoria que também teve espaço importante na degustação.
Salvattore Nature
Outro espumante que mereceu lugar na seleção. É um nature branco elaborado pelo método tradicional, também chamado champenoise, com segunda fermentação em garrafa. Tem baixíssimo teor de açúcar (0,5). Muito cremoso e refrescante no palar.
Família Ulian 2020
O vinho que leva o nome da família também entrou entre meus destaques. O rótulo como uma homenagem ao legado de três gerações. A pedra aplicada à garrafa representa esse trabalho de construção e transformação ao longo do tempo. Corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. Complexo e elegante, tem notas de frutas negras maduras (ameixa), especiarias, tabaco, chocolate amargo e nuances de baunilha. Tem um final longo, marcado por notas de frutas em compota e toques de carvalho sutis.
Cordelier Equilibrium — Fante
Este tinto também é uma excelente relação custo-benefício. Passa oito meses em barricas de carvalho, tem de frutas negras e vermelhas, taninos de textura macia e final prolongado. Um baita vinho por um preço acessivel comparado a outros tintos ícone da região.









A origem certificada e os destaques da degustação
A organização reuniu 15 rótulos com o selo de Indicação de Procedência Altos Montes para o festival. Entre os dez destaques desta seleção pessoal, o Boscato Cave Merlot 2023 é o único que coincide exatamente com aquela relação. Outros produtores aqui citados também estavam representados na lista de certificados, mas com vinhos diferentes. A Casa Eva aparecia com o Essência Cabernet Franc 2026, enquanto a Famiglia Veadrigo participava com o Gran Reserva Cabernet Franc 2024.
A Fabian tinha quatro rótulos na relação: Gran Sauvignon Blanc 2023, Reserva Cabernet Franc 2023, Gran Merlot 2022 e Gran Tannat 2022. Da Luiz Argenta, constavam o L.A. Cave Chardonnay 2024 e o L.A. Clássico Merlot 2021.
A distinção é importante porque a certificação está vinculada aos vinhos que atendem aos critérios da IP. A participação de uma vinícola na associação ou no festival não significa que todos os seus produtos tenham o selo. Da mesma forma, a ausência de um rótulo nessa relação específica não permite concluir que ele jamais tenha sido certificado.

