Inteligência Artificial

Helena Brochado: empresas precisam preparar pessoas para a era da inteligência artificial

Psicóloga e especialista em liderança afirma ao Poder RS que avanço da IA aumenta ansiedade sobre o futuro dos empregos e defende investimento em qualificação e competências humanas

A chegada da inteligência artificial às empresas não representa apenas uma transformação tecnológica. Ela já provoca mudanças comportamentais, aumenta a ansiedade dos trabalhadores e impõe uma nova responsabilidade aos líderes: preparar as pessoas para funções e competências que ganharão importância nos próximos anos.

A avaliação é da psicóloga, palestrante e especialista em desenvolvimento de lideranças Helena Brochado, que abordou os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho durante entrevista ao Poder RS, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre.

Segundo Helena, uma das consequências mais perceptíveis do avanço acelerado da tecnologia é a insegurança dos profissionais sobre a continuidade dos próprios empregos. “A IA está trazendo ansiedade para as pessoas. Justamente por isso: meu emprego vai acabar?”, afirmou durante a entrevista.

Para ela, a resposta das empresas não deve ser ignorar esse temor nem simplesmente introduzir novas ferramentas tecnológicas. O caminho passa por identificar quais competências serão necessárias no futuro e preparar os profissionais que já fazem parte das organizações.

“As grandes companhias estão vendo quais são as próximas competências humanas que elas vão precisar e estão capacitando essas pessoas para que a gente não perca talentos”, disse.

Qualificação pode reduzir ansiedade

Helena sustenta que a percepção de que a empresa está investindo na preparação dos trabalhadores pode diminuir parte da insegurança provocada pela transformação tecnológica.

Na avaliação da psicóloga, quando o profissional percebe que a organização está interessada em sua qualificação e compreende como poderá se adaptar ao novo cenário, a ansiedade tende a diminuir.

“Quando a minha empresa entende as pessoas que trabalham comigo, que a empresa está preocupada em me qualificar, e eu também entendo como vou dar conta disso tudo, a gente consegue baixar a ansiedade”, afirmou.

A abordagem coloca o desenvolvimento profissional no centro da discussão sobre inteligência artificial. Em vez de tratar a tecnologia apenas como instrumento de produtividade ou redução de custos, Helena chama atenção para a necessidade de administrar também o impacto provocado sobre as pessoas.

Competências humanas ganham relevância

Durante a entrevista, Helena argumentou ainda que a evolução da IA aumenta a importância de habilidades essencialmente humanas.

Na avaliação dela, os profissionais precisam investir justamente nas características que os diferenciam das máquinas.

“A IA realmente vem com força muito grande. […] Que a gente possa se qualificar naquilo que ainda nos torna humano, que é o que nos diferencia dela”, afirmou.

Helena também defendeu que os profissionais abandonem uma postura defensiva diante da tecnologia. “Tem muita gente com bloqueio: ‘não vou aprender, não sei fazer’. Tem que enfrentar”, disse.

A fala aponta para um desafio que vai além do domínio de ferramentas de inteligência artificial. Na visão apresentada pela psicóloga, organizações e trabalhadores precisarão combinar capacitação tecnológica com desenvolvimento de competências humanas.

Mais tecnologia deveria significar mais tempo para pessoas

A discussão ocorreu durante uma parte da entrevista dedicada às transformações no trabalho e às diferenças entre gerações.

Helena destacou que, teoricamente, a inteligência artificial deverá liberar parte do tempo atualmente consumido por determinadas tarefas. Para ela, esse ganho deveria ser direcionado para atividades que exigem interação humana, especialmente dentro das empresas.

Ao falar sobre a relação dos gestores com profissionais mais jovens, afirmou que esse tempo poderia ser utilizado para ampliar conversas, diálogo e explicações sobre o propósito das atividades.

“Com esse tempo que a IA vai nos deixar sobrando, teoricamente, eu preciso alocar esse tempo para conversar, para o diálogo, para troca, para explicar o propósito”, afirmou.

A observação está ligada a uma das ideias defendidas por Helena ao longo da entrevista: liderar não significa apenas distribuir tarefas, mas fazer com que as pessoas compreendam por que determinado trabalho precisa ser realizado e qual é sua contribuição para o resultado final.

Na avaliação da psicóloga, esse aspecto se torna particularmente importante diante da entrada da geração Z no mercado de trabalho. Ela argumenta que profissionais mais jovens demandam maior compreensão sobre propósito, impacto e relevância de suas atividades.

O desafio passa a ser também dos líderes

A inteligência artificial, portanto, aparece na análise de Helena Brochado não apenas como uma questão de tecnologia, mas como um novo problema de gestão.

A automação pode modificar funções e processos. Para os líderes, no entanto, surge uma tarefa paralela: administrar a incerteza, preparar profissionais para novas competências e preservar talentos durante a transformação.

O cenário descrito por Helena desloca parte da discussão sobre IA da máquina para as pessoas. Se determinadas tarefas puderem ser feitas com mais rapidez pela tecnologia, o desafio das organizações será decidir o que fazer com o tempo, o conhecimento e a capacidade humana liberados por ela.

E, na visão apresentada pela especialista ao Poder RS, a resposta passa menos por competir com a inteligência artificial e mais por desenvolver aquilo que permanece distintivamente humano.

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