Bebidas

“A culpa é do imposto” é a desculpa favorita de quem vende vinho no Brasil

Economista gaúcho e sommelier, Mauro Salvo desmonta, em entrevista à Folha de S.Paulo, o argumento de que a culpa dos vinhos nacionais caros é toda do imposto

Economista narra uma realidade brasileira, o restaurante cobra o dobro do valor do vinho e do espumante

A cena é banal e todo mundo já viveu. A carta chega à mesa, o dedo desce pela coluna da direita, e ali está: um rótulo que você comprou no mercado na semana passada, agora pelo dobro. Você pede assim mesmo. E bebe pensando no preço.

Mauro Salvo resolveu transformar esse desconforto em objeto de estudo. Economista com mestrado e doutorado pela UFRGS, auditor do Banco Central, sommelier formado pela ABS-RS e bebedor de vinho há quatro décadas, ele acaba de lançar Ensaios de Economia do Vinho, um livro de 178 páginas sobre por que o vinho custa o que custa no Brasil. Em entrevista publicada nesta semana pela Folha de S.Paulo, Salvo resumiu a experiência de pedir uma garrafa fora de casa em uma frase que já circula no setor: “Tomar vinho fora de casa está se tornando uma experiência frustrante e até desagradável”, porque o cliente se sente passado para trás.

A conta, em números

Salvo contou à Folha um exemplo tirado da própria carteira. Em Santa Catarina, pagou R$ 180 por um espumante razoável em um restaurante; o mesmo vinho estava a R$ 90 no varejo. Não é um caso isolado. Ele diz observar garrafas vendidas a quase o dobro do preço de prateleira — e afirma que não há nada na operação de um restaurante que justifique a diferença.

O argumento importa porque inverte a ordem usual do debate. Quando se fala em vinho caro no Brasil, a primeira resposta do setor é a carga tributária. Salvo não nega o peso do imposto. Ele apenas se recusa a parar ali.

A provocação central do livro é direta: se os impostos sobre o vinho brasileiro fossem zerados hoje, ele ficaria barato de verdade? A resposta do autor é não


A pergunta incômoda

A provocação central do livro é direta: se os impostos sobre o vinho brasileiro fossem zerados hoje, ele ficaria barato de verdade? A resposta do autor é não — ou, no mínimo, não automaticamente. Ao destrinchar a cadeia de distribuição e o comportamento do varejo, ele sustenta que a formação de preços passa por margens e intermediários, e que a isenção fiscal sozinha não resolveria a competitividade.

É uma tese que desagrada em várias direções ao mesmo tempo. O produtor gostaria de falar só de imposto. O distribuidor preferiria não ser mencionado. O restaurante preferiria mudar de assunto.

A taxa de rolha entra na conta

O capítulo mais desconfortável para o setor de fora de casa é o da taxa de rolha. Para Salvo, a cobrança abusiva costuma mascarar outra coisa: carta de vinhos malfeita, adega sem curadoria, equipe sem treinamento adequado e ganância desproporcional. Ele não poupa ninguém na cadeia. Na lógica que apresenta, o descaminho é resposta a incentivos — e a ganância pode ser parte desse incentivo, valendo para produtores, importadores, distribuidores, bares, restaurantes e o próprio governo.

Traduzindo: quando o consumidor é tratado como o elo que paga a ineficiência de todos os outros, ele eventualmente descobre. E para de pedir.

O consumidor não é o réu

Há ainda uma defesa que interessa particularmente ao Rio Grande do Sul. Salvo contesta a acusação recorrente de que o brasileiro teria preconceito contra o vinho nacional e prefira o importado por esnobismo. Segundo sua leitura, o problema do vinho brasileiro foi historicamente de reputação — construída quando os produtores migraram do vinho de mesa para o vinho fino sem lastro nesse tipo de produção, apostando na cabernet sauvignon.

A diferença entre as duas explicações não é retórica. Uma culpa o cliente. A outra devolve o problema para quem produz, precifica e distribui.

Livro

Para escrever seu livro, Salvo apresentou dois estudos no Congresso de Marketing do Vinho, em Bordeaux, em dezembro de 2025, e lançou a obra em Porto Alegre, em sessão de autógrafos realizada em 7 de agosto na loja Vinhos do Mundo, na avenida Getúlio Vargas. A edição da editora Laurea tem 178 páginas e é vendida a R$ 79,90.

Para um estado que se vende como produtor de vinho e ao mesmo tempo cobra caro para servi-lo, o diagnóstico chega na hora certa. O Rio Grande do Sul tem vinícolas, tem rotas turísticas, tem denominação de origem e tem restaurantes. O que ainda não tem é uma conversa honesta sobre o que acontece com o preço entre a cantina e a taça. Salvo abriu essa conversa. Falta ver quem senta à mesa.


‘Tomar vinho fora de casa é frustrante, você se sente um idiota’, diz economista

Fonte: entrevista de Mauro Salvo à Folha de S.Paulo, distribuída pela Folhapress e publicada em 11 de setembro de 2026.

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