ColunistasCultura

Os gaúchos entenderam uma coisa que parte do cinema brasileiro esqueceu

CRÍTICA | “A História Mais Triste do Mundo” foi meu filme preferido da mostra gaúcha

“A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, conta a história de um menino vendido pelos pais para um circo

Por Orestes Junnior | Jornalista | Participou da cobertura de 14 edições do Festival de Cinema de Gramado

Depois de acompanhar as duas mostras de longas do 54º Festival de Cinema de Gramado, saí com uma impressão que ficou ainda mais evidente à medida que os filmes passavam: a seleção gaúcha foi melhor do que a competição nacional neste ano. Não necessariamente porque tenha apresentado produções mais caras ou filmes tecnicamente mais ambiciosos. A diferença, para mim, esteve em algo muito mais básico: os gaúchos contaram melhor suas histórias. E, principalmente, não pareceram constrangidos por fazer isso.

Parte dos longas brasileiros que vi em Gramado voltou a um tipo de cinema excessivamente preocupado em demonstrar linguagem, no qual a forma algumas vezes se torna mais importante do que aquilo que se pretende contar. Há silêncios que parecem obrigatórios, planos que duram mais do que deveriam e uma solenidade que, em alguns momentos, dá a impressão de que o filme está permanentemente tentando provar a própria importância. Uma chatice.

Os gaúchos, em geral, escaparam disso. Foram mais diretos, mais diversos e, curiosamente, mais livres. Ser compreendido não torna um filme menor. Talvez a diferença mais evidente entre as duas mostras tenha aparecido na reação da plateia. O público respondeu aos filmes gaúchos. Houve risadas, tensão, emoção, comentários na saída das sessões. Os filmes continuavam sendo discutidos depois que as luzes acendiam. Isso deveria ser absolutamente normal no cinema, mas às vezes parece que deixou de ser.

Existe uma parcela do cinema autoral que trata a comunicação com o público quase como uma concessão comercial. Como se uma obra perdesse valor intelectual quando consegue ser compreendida por muita gente. Não vejo sentido nisso. Ser compreendido não diminui uma obra. Ser óbvio, sim. São coisas completamente diferentes. Um filme pode exigir do espectador sem afastá-lo. Pode ser sofisticado sem ser indecifrável. Pode experimentar sem transformar a experiência de assistir em um teste de resistência.

Os melhores filmes gaúchos que vi em Gramado fizeram exatamente isso.

A minha história preferida foi a mais triste
“A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, foi meu filme preferido da mostra gaúcha. A premissa tinha tudo para resultar em um melodrama pesado: um menino vendido pelos próprios pais para um circo, atravessando abandono, exploração e perdas.

Montanari faz justamente o contrário. Usa atores, animação e bonecos para contar uma história dura com uma leveza que nunca banaliza o sofrimento. Há humor, fantasia e tristeza convivendo no mesmo filme sem que uma coisa anule a outra. E talvez esteja aí seu maior mérito: o filme confia no espectador. Não precisa avisar quando é hora de se emocionar.

O reconhecimento do júri foi amplo. “A História Mais Triste do Mundo” venceu os prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Ator, para Arthur Seidel, Melhor Trilha Musical, para João Vitor Costa Dias, Melhor Desenho de Som, para Gabriela Bervian, e Melhor Fotografia, para Juarez Pavelak. Foram seis prêmios. Não levou o principal, mas foi, na minha avaliação, o filme mais completo que vi na competição gaúcha.

“Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido”, de Luciane Fagundes

Uma filha tentando conhecer o pai
“Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido”, de Luciane Fagundes, corria outro risco: transformar-se numa homenagem protocolar a uma personalidade importante da cultura gaúcha. Felizmente, Luciane não faz isso. Darcy Fagundes foi um personagem enorme da comunicação do Rio Grande do Sul, mas o documentário fica realmente interessante quando deixa de olhar para o homem público e se aproxima do pai. Ou, mais precisamente, do pai que a própria filha percebe não ter conhecido completamente.

Luciane não preserva o personagem numa redoma. Aparecem as distâncias, o alcoolismo, os conflitos, os ressentimentos e também o afeto. É justamente quando Darcy deixa de ser monumento que o documentário cresce. No final, estamos menos diante de um filme sobre uma personalidade gaúcha e mais diante de uma filha tentando compreender o próprio pai. Isso qualquer pessoa entende.

“Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman, foi o filme mais divertido que vi em Gramado

Um monstro gaúcho. Finalmente
“Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman, foi provavelmente o filme mais descaradamente divertido que vi na mostra. E “divertido”, aqui, não é um elogio menor. Há paramédicos, dinheiro, ganância, ficção científica, terror, efeitos práticos e uma criatura eletromagnética. Furman não parece preocupado em demonstrar solenidade cinematográfica. Quer fazer cinema de gênero e assume isso do início ao fim. Que bom. Durante muito tempo, o cinema produzido no Rio Grande do Sul pareceu carregar a obrigação de falar de determinadas coisas, de determinada maneira, para ser levado a sério. Remanente não pede licença. Tem um monstro. Liga a tomada. E se diverte com isso. Eu também.

A comunidade do Morro da Cruz contou sua própria história

O Morro da Cruz visto por quem está lá
“Morro da Cruz – Memória Popular”, de Crystom Afronário, segue por um caminho completamente diferente. O que mais me interessou no filme foi o ponto de vista. O Morro da Cruz não aparece como cenário de pobreza ou violência observado por alguém que chega, filma e vai embora. A comunidade conta sua própria história. Isso vale muito. Memória, cotidiano e pertencimento aparecem pela voz de quem vive naquele território. O filme não precisa de grandes invenções formais para justificar sua existência. Seu valor está justamente na proximidade com as pessoas e na legitimidade daquele olhar.

“Filhas da Lua” narra a trajetória de quatro travestis que sobreviverem à névoa do sistema prisional

Filhas da Lua foi o grande vencedor
O resultado oficial da Mostra Competitiva Sedac/Iecine de Longas-Metragens Gaúchos trouxe outro dado interessante. “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, foi o grande vencedor e levou o prêmio de Melhor Filme tanto do júri técnico quanto do júri popular. A coincidência é relevante. Críticos e público não precisam concordar, e frequentemente é saudável que não concordem. Mas quando um mesmo filme conquista os dois grupos, vale prestar atenção.

“Filhas da Lua” conseguiu reconhecimento artístico sem perder a conexão com quem estava sentado no cinema. E esse resultado conversa diretamente com aquilo que, para mim, diferenciou a mostra gaúcha da nacional neste ano. Quando a dificuldade vira pose. Não estou defendendo um cinema fácil. Muito menos que todo filme precise ser linear, divertido ou imediatamente compreensível. Cinema também serve para desconcertar, provocar e experimentar. Algumas das melhores obras que já vi exigem tempo, repertório e disposição do espectador. O problema é outro. É quando a dificuldade passa a funcionar como certificado de inteligência.

Quando um plano longo parece existir apenas porque planos longos supostamente significam profundidade. Quando ninguém fala porque o silêncio ganhou status automático de linguagem sofisticada. Quando contar uma boa história começa a parecer uma concessão ao mercado.

Aí há um problema. Nem tudo que é difícil é profundo. Às vezes é apenas difícil. Muitaz vezes é falya de capacidade em comunicar ou ego além da medida. E nem tudo que entretém é superficial. Essa oposição entre cinema “de arte” e cinema capaz de envolver o público me parece cada vez mais velha e pouco produtiva. Spielberg nunca precisou escolher. Scorsese também não. Almodóvar muito menos. E Walter Salles já mostrou várias vezes que é possível fazer cinema brasileiro sofisticado, autoral e compreensível sem tratar o espectador como alguém que precisa decifrar um enigma.

Há alguém sentado do outro lado da tela
Foi isso que encontrei com mais frequência nos longas gaúchos deste ano: a percepção de que existe alguém assistindo. Parece uma constatação banal. Não é. O espectador não precisa receber tudo mastigado, mas também não deveria ser tratado como um intruso na obra. Há uma diferença enorme entre desafiar o público e ignorá-lo. Os filmes gaúchos que mais me interessaram entenderam essa diferença. Talvez por isso tenham provocado uma reação tão boa dentro do Palácio dos Festivais.

Gramado ainda precisa ser esse lugar
O Festival de Cinema de Gramado tem uma qualidade que poucos festivais brasileiros possuem: consegue colocar realizadores, atores, críticos, imprensa e público no mesmo ambiente.Essa mistura é preciosa. Porque cinema não termina quando aparecem os créditos. Continua na conversa da saída, no debate, na discordância, na crítica, na recomendação para alguém assistir no dia seguinte. Por isso, depois desta edição, talvez uma pergunta seja mais importante do que discutir simplesmente quem merecia cada Kikito: para quem estamos fazendo cinema?

Não existe uma resposta única. Nem deveria existir. Mas, se em algum momento o público desaparecer completamente dessa equação, talvez seja prudente desconfiar. Uma sala escura, uma grande tela e nenhuma pessoa nas poltronas ainda podem produzir uma bela fotografia. Para o cinema, porém, seria um péssimo sinal.

Neste ano, os longas gaúchos que vi em Gramado souberam ocupar o outro lado dessa relação. Filhas da Lua saiu como o grande vencedor, escolhido pelo júri técnico e pelo público. A História Mais Triste do Mundo, meu preferido, conquistou seis prêmios e mostrou que sofisticação técnica e emoção podem andar juntas sem que uma precise pedir desculpas pela outra. São filmes muito diferentes. E justamente por isso a mostra foi interessante. Não existe uma fórmula comum entre eles. Existe algo melhor: boas histórias contadas por realizadores que não parecem ter vergonha de querer ser ouvidos.

Neste Festival de Gramado, pelo menos para mim, o cinema gaúcho falou mais alto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *