Sócia da Tor Créditos é advogada sênior da FCM, holding de Carlos Melke ligada ao controle da Ulbra
Lizie Kassab integra a equipe da FCM e já trabalhou na Aelbra; Tor foi instalada dentro do campus da Ulbra para negociar créditos de trabalhadores, com propostas “aviltantes”, segundo sindicatos
Orestes Junnior
Uma declaração feita nesta segunda-feira, 28, durante audiência de mediação no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4) levou o Poder RS a aprofundar a investigação sobre a Tor Créditos e revelou novos vínculos entre sua única sócia-administradora, Lizie Cristina Montanholi Kassab, e a estrutura empresarial comandada por Carlos Augusto Melke Filho.
Durante a audiência, Estevão Rodrigo da Silva Stertz, assessor jurídico do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Privado dos Vales do RS (Sintep Vales), mencionou reportagens [imagens abaixo] que informaram a aquisição, por R$ 60 milhões, da escola Stance Dual, em São Paulo, pela FCM Investment Holding.


A partir dessa referência, o Poder RS rastreou a estrutura empresarial e chegou a uma informação que ainda não havia aparecido na investigação da Tor: de acordo com o site da FCM Investment Holding, Lizie integra atualmente sua equipe como “Advogada Sênior” [imagens abaixo].
A própria FCM se apresenta como “holding de participações do empresário Carlos Melke”. No Rio Grande do Sul, informa como endereço a Avenida Farroupilha, 8001, em Canoas — o mesmo endereço do campus da Ulbra.


Liziê na equipe de Melke
No site da FCM, Carlos Melke é identificado como sócio-controlador e CEO. João Pedro Melke e Tárik Alves de Deus são apresentados como sócios-fundadores e integrantes do Comitê de Investimentos. Tárik também ocupa, desde 10 de setembro de 2026, o cargo de CEO da Ulbra. A própria universidade informa que ele foi nomeado por Carlos Melke, presidente da Ulbra S.A., para responder pela gestão e operação nacional da instituição. João Pedro Melke, por sua vez, consta em documentos da Aelbra examinados pelo Poder RS como vice-presidente.
No caso de Lizie, o perfil exibido pela FCM informa também que ela atuou como supervisora sênior de Controladoria Jurídica na Aelbra, mantenedora historicamente ligada à Ulbra.

Há ainda uma relação societária que ajuda a explicar a estrutura. FCM Investment Holding é a marca sob a qual o grupo se apresenta institucionalmente. Já a FCM Participações Ltda. é uma pessoa jurídica que integra essa estrutura empresarial e consta formalmente como sócia da Rede Evolua Educação Ltda. desde março de 2022. Carlos Melke aparece como administrador da Rede Evolua. Foi a Rede Evolua que, em 2022, ingressou na estrutura de controle da Aelbra.
Relação com os Melke vem de anos
A própria Lizie já havia reconhecido sua relação profissional com Carlos e João Melke. Em vídeo gravado com o professor Felipe Merino [veja abaixo], ao ser questionada diretamente sobre sua relação com Carlos Melke, Lizie afirmou que trabalhou durante anos com os Melke e que sua experiência com cessão de créditos começou nesse período. “Eu trabalhei com o Melke muitos anos. Inclusive eu aprendi sobre cessão de crédito com eles, né? Porque eu trabalhei na Melke Advogados anos atrás”, disse. Na mesma resposta, Lizie afirmou: “Eles são meus parceiros há muito tempo. Conheço o Carlos, conheço o João.”
Ao explicar sua situação profissional, Lizie apresentou essa relação principalmente a partir de sua atuação anterior na Melke Advogados. Disse que havia prestado serviços como advogada e que atualmente estava na condução de suas “causas particulares”.
A resposta não contém uma negativa expressa de vínculo profissional atual com os Melke. Mas os documentos reunidos agora pelo Poder RS acrescentam uma informação que não foi mencionada por Lizie ao responder à pergunta: o site da FCM continua apresentando-a como integrante da equipe de Carlos Melke, na função de Advogada Sênior.
Outro registro aponta na mesma direção. Em publicação no LinkedIn, Lizie anunciou recentemente uma vaga de advogado para trabalhar presencialmente em São Paulo. O texto identifica a contratante como FCM, descreve a empresa como holding de Carlos Melke e orienta os candidatos a enviarem currículo para o endereço corporativo: lizie.cristina@fcmih.com.br. O mesmo e-mail foi utilizado no cadastro de outra empresa aberta por Lizie em agosto.
Outra holding aberta 15 dias depois da Tor


A Sunderville Participações Ltda. foi constituída em 11 de agosto de 2026, apenas 15 dias depois da Tor. Lizie é sua sócia-administradora. A Sunderville possui capital social de R$ 500 mil e está registrada na Avenida Inconfidência, 1231, em Canoas, endereço associado ao Colégio Ulbra Cristo Redentor.
No cadastro da empresa consta justamente o e-mail corporativo de Lizie na FCM. O contraste chama atenção nos registros: enquanto a Sunderville foi constituída com R$ 500 mil de capital social, a Tor, aberta 15 dias antes para atuar também com aquisição de créditos, registra capital de apenas R$ 1 mil.
Tor foi instalada dentro da Ulbra
A Tor Créditos Ltda. foi constituída em 27 de julho de 2026. Lizie é sua única sócia-administradora. A sede foi estabelecida na Avenida Farroupilha, 8001, prédio 10, sala 312, dentro do campus da Ulbra em Canoas.No vídeo gravado com Merino, Lizie confirmou que a escolha foi deliberada. “O endereço da empresa ficou na própria Ulbra.”
Segundo ela, por ser de São Paulo, considerou comercialmente mais adequado instalar a empresa no Rio Grande do Sul e perto dos credores da instituição. A Tor passou a oferecer a trabalhadores a aquisição de seus créditos com deságio.
Contador da Aelbra/Ulbra constituiu a Tor
O cadastro da Tor contém outro vínculo direto com a estrutura da universidade. O endereço eletrônico informado à Receita Federal na abertura da empresa é ailson.vier@aelbra.com.br. Ailson José Vier é contador ligado à Aelbra/Ulbra e aparece identificado nessa função em demonstrações contábeis da mantenedora.
No vídeo gravado com Felipe Merino, a própria Lizie confirmou que foi Ailson quem realizou a constituição da Tor. “Quem fez a constituição da minha empresa é o Ailson. O Ailson é um contador.” Lizie afirmou que já conhecia Ailson havia algum tempo e que recorria a ele para a abertura de suas empresas por considerá-lo um profissional de confiança.
A relação entre os dois, porém, não se restringe à Tor. Lizie e Ailson também ocupam conjuntamente a direção do Instituto Vitalis Ulbra de Educação, Gestão e Atenção à Saúde: ela como presidente e ele como diretor.
Há ainda uma proximidade física objetiva entre as duas estruturas. O Instituto Vitalis está registrado dentro do campus da Ulbra em Canoas, na Avenida Farroupilha, 8001, prédio 10, sala 311. A Tor está registrada no mesmo prédio, na sala 312.
Assim, o contador ligado à Aelbra/Ulbra é diretor de uma entidade presidida por Lizie, foi responsável pela constituição da Tor e teve seu e-mail corporativo @aelbra.com.br registrado no CNPJ da empresa.
O que diz Lizie
No vídeo gravado com Felipe Merino, Lizie afirmou que a Tor é um empreendimento próprio e que utiliza recursos próprios para adquirir os créditos. “Eu não investiria dinheiro, recurso próprio meu, numa aquisição de algo que eu não conheço”, afirmou.
Ela reconheceu sua relação de longa data com Carlos e João Melke, confirmou que Ailson constituiu a Tor e explicou que escolheu instalar a empresa dentro da Ulbra para facilitar a aproximação com os credores.
Ao falar especificamente de sua relação profissional com os Melke, Lizie mencionou sua passagem pela Melke Advogados “anos atrás”, afirmou ter prestado serviços como advogada e disse estar atualmente conduzindo suas “causas particulares”. Não mencionou, nessa resposta, ocupar a função de Advogada Sênior da FCM, como consta atualmente no site da holding de Carlos Melke.
Sobre o capital social de R$ 1 mil, afirmou que os contratos possuem mecanismos de proteção em caso de inadimplência. Segundo sua explicação, após cinco dias sem pagamento haveria multa e, persistindo o descumprimento, possibilidade de rescisão. Lizie sustenta que, nesse caso, o trabalhador recuperaria a titularidade do crédito.
Os documentos examinados pelo Poder RS não identificam Carlos Melke, FCM Participações, FCM Investment Holding ou Aelbra como sócios formais da Tor, nem demonstram que sejam beneficiários econômicos das operações da empresa.
Eles revelam, porém, vínculos profissionais e empresariais que não haviam sido apresentados com essa extensão: a única sócia da Tor é identificada atualmente no site da FCM como Advogada Sênior, já trabalhou na Aelbra, utiliza e-mail corporativo da FCM, reconhece ter trabalhado durante anos com os Melke e afirma ter aprendido com eles sobre cessão de créditos.
Outro lado
O Poder RS tem procurado as pessoas e empresas citadas na matéria, mas não tem obtido retorno. O espaço permanece aberto para a manifestação das pessoas e instituições citadas.
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