A Ulbra no novelo do Master
Um financiamento para comprar a mantenedora, dois vice-presidentes indicados pelo banco, um fundo credor de R$ 1,5 bilhão e uma ação sobre cursos de Medicina no STF. O que se sabe, e o que ainda falta explicar, sobre os laços entre a universidade de Canoas e o banco de Daniel Vorcaro.

Orestes de Andrade Jr.
Na quinta-feira, 3 de setembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial de duas pequenas distribuidoras de valores de São Paulo, a Trustee DTVM e a Banvox DTVM. Ambas eram controladas por Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. A notícia ocupou as páginas de economia como mais um desdobramento do caso já conhecido como a maior fraude bancária da história do país. Nas reportagens sobre a liquidação consultadas pelo Poder RS, Canoas não aparece. Deveria aparecer.
Reportagens publicadas em abril deste ano identificam o fundo Calêndula, maior credor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), fundo administrado pela Trustee DTVM, apontada como parte relacionada ao Master. Segundo dados do plano de recuperação judicial aprovado em 2023, o fundo detinha mais de R$ 1,5 bilhão em créditos contra a mantenedora da universidade.
É o capítulo mais recente de uma relação que começou em 2022, atravessou a recuperação judicial da Ulbra, chegou ao Supremo Tribunal Federal por meio de uma ação sobre cursos de Medicina e hoje está pendurada num processo de liquidação. A Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da universidade, sustenta que a Ulbra nunca foi controlada pelo banco e se apresenta como vítima dele. Os documentos da própria recuperação mostram, porém, que o Master e fundos de sua órbita passaram quatro anos muito perto da porta: como financiadores do comprador, como credores, como candidatos a ficar com a Medicina e, durante um mês de 2025, como pretendentes a acionistas. Desde o princípio da gestão de Carlos Melke, indicaram o vice-presidente, o que demonstra uma ligação próxima, além do admitido oficialmente.
Uma universidade à venda
A Aelbra pediu recuperação judicial em 6 de maio de 2019, na 4ª Vara Cível da Comarca de Canoas (processo nº 5000461-37.2019.8.21.0008). À época, a própria instituição estimava o endividamento financeiro e trabalhista em R$ 8,2 bilhões.
A troca de dono veio antes do dinheiro novo. Segundo manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) no processo, relatada em agosto de 2023 pelo colunista Flavio Pereira, do jornal O Sul, os professores que comandavam a reitoria transformaram a Aelbra em sociedade anônima no fim de 2018 e se tornaram, eles próprios, acionistas. A PGFN considerou a manobra surpreendente. Três anos depois, eles venderam as ações à Rede Evolua Educação, do empresário Carlos Melke. Cada professor recebeu R$ 10 milhões, R$ 40 milhões no total, conforme valores documentados pela Fazenda.
Pela cronologia divulgada pela própria Aelbra, a mudança de controle ocorreu em fevereiro de 2022. E é no financiamento dessa compra que o nome do Master aparece pela primeira vez. Há duas versões para a origem do dinheiro, e elas convergem no essencial. Na da PGFN, a compra foi financiada pelo fundo Vanguard, administrado pela Planner Trustee, distribuidora de Maurício Quadrado, então sócio de Vorcaro. Na da Aelbra, publicada em nota de março de 2026, o Banco Master concedeu a Carlos Melke uma operação de crédito regular, garantida por imóveis, e os recursos foram usados para pagar os antigos acionistas. Em ambas as versões, o financiamento da troca de controle aparece ligado ao Banco Master ou a agentes então vinculados à instituição.
A chave da casa se chamava Medicina
Em recuperação judicial, quem empresta costuma querer mais do que juros. Quer a chave de algum cômodo. No caso da Ulbra, o cômodo tinha nome: a Medicina, que a cobertura nacional do caso aponta como a principal fonte de receita da universidade.
A Aelbra reconhece que, depois do financiamento a Melke, o banco fez novos aportes com o objetivo de adquirir uma unidade da Faculdade de Medicina. Reconhece também que, para se habilitar como eventual comprador, o Master adquiriu créditos da instituição no mercado secundário e se tornou credor relevante.
No plano de recuperação aprovado em 2022, o fundo Calêndula, que segundo a própria Aelbra tem ligação de origem com o Master, seria o stalking horse: a figura que se compromete a comprar determinado ativo em leilão por valor fixado no plano. O fundo assumiria boa parte das dívidas da mantenedora em troca de uma unidade de Medicina. A operação não se concretizou.
Para a PGFN, a engrenagem era outra. Na manifestação de 2023, a Fazenda descreveu um memorando de entendimento entre a Rede Evolua e o Vanguard. Por ele, a Planner Trustee selecionaria veículos de investimento para comprar créditos em volume suficiente para garantir maioria nas assembleias de credores. O veículo escolhido foi o Calêndula, que também se apresentou como único interessado no curso de Medicina, tornando-se, nas palavras da Procuradoria, “credora e devedora ao mesmo tempo”. A PGFN afirmou nos autos que a recuperação estava sendo usada para lesar credores, sobretudo o Fisco.
A Advocacia-Geral da União (AGU) também se manifestou, sustentando que os leilões eram nulos por falta de autorização prévia do Ministério da Educação.
As acusações da PGFN são a tese de uma das partes, não uma conclusão judicial. A Aelbra afirma que todos esses pontos foram discutidos e superados no processo de recuperação.
O leilão de R$ 700 milhões com um único inscrito
O ponto de maior atrito chegou em julho de 2023, quando a Faculdade de Medicina foi a leilão, com preço mínimo de R$ 700 milhões. Havia um único inscrito, e um único lance: o do Calêndula.
Em 31 de julho, o juiz Sandro Antônio da Silva, da 4ª Vara Cível de Canoas, suspendeu a proclamação do resultado. Na decisão, considerou preocupante a habilitação do fundo como único participante, por se tratar do maior cessionário de créditos da recuperanda, que poderia usar esses créditos no próprio lance, pelos valores nominais registrados no quadro geral de credores, cifra que superaria com folga o mínimo do edital. Em outras palavras: o maior credor poderia pagar pela faculdade com papéis que ele mesmo havia comprado no mercado. O juiz registrou ainda que a administração judicial reconhecera falta de transparência na venda do controle acionário da Aelbra à Rede Evolua.
Em agosto, o desembargador Niwton Carpes da Silva, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, liberou a divulgação do resultado. Em 28 de setembro de 2023, a presidente do Superior Tribunal de Justiça, Maria Thereza de Assis Moura, suspendeu a decisão que autorizava a alienação, atendendo a pedido da União. Entre os fundamentos, a ministra apontou o risco de comprometimento de bens relevantes para a satisfação do passivo fiscal, superior a R$ 6 bilhões, e a ausência de autorização prévia do MEC para a transferência da unidade de Medicina. A Aelbra afirmou à época que não recorreria e que confiava no julgamento do mérito.”
O plano que trocava dívida por ações
Com a venda da Medicina barrada pelo STJ, o plano que dependia dela perdeu o pé. Em 20 de dezembro de 2023, os credores aprovaram em assembleia um plano substitutivo.
A venda da Medicina saiu da mesa. Em seu lugar entrou uma fórmula mais ambiciosa para o credor. Segundo reportagem do Extra Classe, os créditos do Calêndula, superiores a R$ 1,5 bilhão, seriam convertidos em capital, o que faria do fundo o principal acionista da mantenedora. Os demais credores seriam pagos com a venda de imóveis e de unidades produtivas isoladas, entre elas colégios em Goiás, no Rio Grande do Sul, em Rondônia, no Pará e no Tocantins.
A cronologia publicada pela Aelbra acrescenta um detalhe relevante: o plano previa a conversão de dívida em capital com uma cláusula antidiluição que garantia à controladora no mínimo 30% das ações. Em 29 de julho de 2024, a mantenedora emitiu a segunda série de debêntures conversíveis.
A conversão dependia de um aporte estimado em cerca de R$ 1 bilhão, que seria destinado integralmente a quitar a transação tributária e os credores trabalhistas. Segundo a Aelbra, o valor foi objeto de uma negociação longa e desgastante entre Melke e os representantes do fundo. Nunca chegou.
Em 27 de maio de 2025, o FIDC Calêndula enviou à Aelbra uma notificação extrajudicial pedindo a conversão das debêntures em ações ordinárias. Um mês depois, em 27 de junho, enviou outra notificação, desta vez pedindo a suspensão do pedido. As razões do recuo não foram tornadas públicas.
Master indicou vice-presidentes
Um ponto merece registro, porque tensiona a afirmação da Aelbra de que o Master nunca esteve na operação da universidade: a indicação de executivos. No fim de 2024, Marcello Stewers foi apresentado como vice-presidente e diretor-administrativo e financeiro da mantenedora. Segundo relatos de pessoas que acompanharam a transição, ele teria chegado por indicação do Banco Master, para ajustar as contas e preparar a entrada do banco no capital, com 70% do controle.
Stewers substituiu Antônio Carlos Romanoski, que, segundo as mesmas fontes, também havia sido indicado pelo banco para a vice-presidência. O nome de Romanoski, com a informação de que fora indicado pelo Master, aparece nos autos do incidente de desconsideração da personalidade jurídica tratado adiante nesta reportagem. Ainda segundo os relatos, Stewers reduziu poderes de Melke e passou a questionar contratos, sobretudo nas áreas comercial e de marketing. Deixou a universidade em meados de maio de 2025, sem comunicação interna ou externa sobre sua saída.
Na noite de 17 de novembro de 2025, a Polícia Federal prendeu Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, na primeira fase da Operação Compliance Zero. No dia seguinte, 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Em 14 de janeiro de 2026, a segunda fase cumpriu mandados de busca em cinco estados, entre eles o Rio Grande do Sul, sem que os alvos gaúchos tenham sido identificados publicamente.
A Aelbra afirma que, à medida que as notícias sobre o banco se avolumavam, barrou por meios jurídicos todas as tentativas desses agentes de entrar no quadro societário. E faz um balanço amargo: diz que a expectativa de saneamento financeiro dependia de um financiador que, sabe-se hoje, nunca teve condições de cumprir o que prometeu. Na mesma nota, a mantenedora rejeita a ideia de que a universidade seja um “tentáculo” do banco.
A Medicina chega ao Supremo
Enquanto a disputa corria em Canoas, o futuro dos cursos privados de Medicina era decidido em Brasília. Em 8 de junho de 2022, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) ajuizou no STF a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 81. O objetivo era confirmar a validade da regra do programa Mais Médicos que exige chamamento público prévio para a abertura de cursos e vagas. O pano de fundo eram as liminares com que várias faculdades vinham obrigando o MEC a analisar pedidos fora desse rito.
Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório de cerca de 200 páginas sobre menções ao ministro Dias Toffoli no celular de Vorcaro. Conforme revelou a jornalista Malu Gaspar, em O Globo, em 14 de fevereiro, o documento registra que Vorcaro enviou ao advogado Walfrido Warde prints de minutas de contrato para a atuação da advogada Roberta Rangel, então mulher de Toffoli, em dois casos de interesse do banqueiro.
O primeiro print foi enviado em 16 de dezembro de 2020 e tratava da Operação Fundo Fake, que investigou fraudes em fundos de pensão municipais e na qual Vorcaro chegou a ter a prisão decretada, depois revogada. O segundo foi enviado em 21 de setembro de 2022 e tratava da ADC 81, sete meses depois da troca de controle da Aelbra.
Segundo a reportagem, o interesse de Vorcaro na ação estaria ligado à Ulbra, cuja receita dependia principalmente dos cursos de Medicina. Roberta Rangel trabalhou no Warde Advogados de fevereiro de 2021 ao fim de 2022. Procurada por O Globo, negou ter atuado de fato nos dois processos. Sobre a ADC 81, disse ter apenas subscrito procuração a pedido do escritório, em nome da Associação Brasileira das Faculdades Independentes (Abrafi), e não do banqueiro.
O julgamento andou devagar. O relator, Gilmar Mendes, concedeu liminar parcial em 7 de agosto de 2023. O mérito foi concluído no plenário virtual encerrado em 4 de junho de 2024, por 8 votos a 3, validando a exigência de chamamento público. Toffoli acompanhou o relator na manutenção das restrições. A disputa mais fina estava na modulação dos efeitos: a corrente de Gilmar, que preservou cursos já iniciados e permitiu a continuidade de processos de autorização em fase avançada, reuniu sete ministros, entre eles Toffoli. Segundo a cobertura do relatório da PF, essa situação alcançava unidades da Ulbra.
Toffoli deixou a relatoria do caso Master em 12 de fevereiro, após a entrega do relatório. No mesmo dia, afirmou nunca ter recebido pagamentos nem mantido relação com Vorcaro.
Na quinta-feira, 10, a revista piauí revelou que o relatório, ao que tudo indica o mesmo entregue em fevereiro, tem 196 páginas, foi assinado por quatro delegados e foi examinado pelos ministros em reunião sigilosa. Os magistrados o consideraram juridicamente imprestável e o mantiveram sob sigilo. Entre as hipóteses que a PF pede para aprofundar está a de que Toffoli seria o beneficiário final do fundo Arleen, que recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro. Segundo a matéria, o documento também afirma que Roberta Rangel atuou como advogada do banqueiro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025. O gabinete de Toffoli nega que o ministro tenha mantido recursos no exterior e afirma que o relatório foi arquivado por decisão definitiva.
Quadrado, a Trustee e o fundo em suspenso
Maurício Quadrado é o fio que atravessa as duas pontas da história, a de 2022 e a de 2026. Sócio do Master entre 2020 e 2024 e ex-presidente do Banco Master de Investimento, ele era, segundo a PGFN, o dono da distribuidora que administrava o fundo usado na compra da Aelbra. Em junho deste ano, fechou acordo com o liquidante do Master. O liquidante sustenta que o banco transferiu R$ 230 milhões sem contrapartida ao Fundo Albali, controlado por Quadrado, em 2024, e afirma que o ex-sócio vem colaborando com a recuperação de ativos. A defesa de Quadrado nega qualquer desvio em seu benefício.
Melke sempre disse que seu interlocutor no Master era Maurício Quadrado. Nunca mencionou interna ou externamente ter acesso direto a Vorcaro. Em 3 de setembro, o Banco Central liquidou a Trustee DTVM e a Banvox DTVM, controladas por Quadrado, alegando graves violações às normas que regem as instituições financeiras. A Trustee era a principal administradora dos fundos da Master Asset Management, braço de gestão de recursos do grupo, e já havia sido alvo, em 2025, da Operação Carbono Oculto. Com a liquidação, ficaram indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores das duas distribuidoras.
Em nota conjunta, Trustee e Banvox negaram irregularidades, disseram ter recebido a decisão com surpresa e destacaram que nenhum de seus executivos foi incluído na denúncia do Ministério Público na Carbono Oculto. A liquidante nomeada para a Trustee é Marilena Simões Valentim, distinta do liquidante do Master.
A ligação com Canoas passa pelo Calêndula. Dados referentes a julho de 2026 apontavam a Trustee DTVM como administradora e custodiante do fundo, enquanto a Blue Solutions Asset Management figurava como gestora. Com a liquidação da Trustee, permanece a questão sobre quem assumirá a administração do Calêndula. Os ativos do fundo não se confundem com o patrimônio da distribuidora liquidada. Os fundos ficam numa espécie de limbo operacional. Os ativos não são congelados juridicamente nem se misturam ao patrimônio da distribuidora, mas resgates, amortizações e cessões de cotas podem ficar paralisados.
A conta fica em Canoas
Enquanto a disputa se desenrola entre fundos, liquidantes e tribunais superiores, a conta mais concreta chega a quem estuda e trabalha na universidade. A Aelbra informa ter mais de 40 mil alunos e 3 mil funcionários. Em 22 de abril, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) denunciou novo adiamento no pagamento de mais de R$ 193 milhões a cerca de 10 mil credores trabalhistas. Os pagamentos deveriam ter começado em 15 de março.
No fim do mesmo mês, portaria da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC suspendeu o ingresso de novos alunos na Medicina da Ulbra em Gravataí, interrompeu as atividades acadêmicas do curso em Porto Alegre e manteve o campus de São Jerônimo em fase preparatória de supervisão. Eram graduações que funcionavam amparadas por decisões judiciais, tema que esteve no centro da ADC 81.
Para dar liquidez à recuperação, a Aelbra submeteu à Justiça um financiamento de até R$ 70 milhões com o Banco Genial, destinado a antecipar pagamentos a trabalhadores. Segundo o Extra Classe, as negociações com o banco incluem a possível venda de imóveis, como unidades em Canoas.
A ligação entre todos em um processo
Um processo na Justiça traz elementos sobre a ligação entre Aelbra, Ulbra, Banco Master, Calêndula, Cartos, Vanguard e Trustee. A disputa começou em 2023, quando o advogado Rodolfo Wild, ex-procurador-geral da Aelbra, ajuizou uma ação de arbitramento de honorários contra a Aelbra Educação Superior. Wild recorreu à Justiça para discutir e cobrar honorários decorrentes de sua atuação profissional para a instituição. No cadastro do processo também aparece como autor o advogado Antônio Claudemir Weck.
A partir dessa cobrança, Wild sustentou que a responsabilidade não deveria ficar restrita à Aelbra e, em 2024, pediu a desconsideração da personalidade jurídica para tentar alcançar outras pessoas, fundos e empresas que, segundo sua tese, estariam econômica ou operacionalmente ligadas à devedora. Entre os atingidos pelo pedido aparecem Banco Master, Calêndula FIDC, Cartos Sociedade de Crédito Direto, Vanguard e Trustee/Planner.
Uma decisão de primeiro grau nesse incidente provocou ao menos dois recursos ao TJ-RS: um apresentado por Maurício Antônio Quadrado e outro por Planner/Trustee, Calêndula e Vanguard. Nos documentos desses recursos surgem alegações sobre vínculos operacionais, origem de recursos e participação do Banco Master na indicação de executivos, incluindo referência a Antônio Carlos Romanoski, que ocupou a vice-presidência da Aelbra.
No julgamento dos recursos interpostos pelos Fundos e pelo Maurício Quadrado foram improvidos, isto é, esses perderam no Tribunal. Assim, a decisão de primeiro grau está mantida integralmente. Isso não significa que a Justiça tenha reconhecido todos os envolvidos como integrantes de um único grupo econômico ou considerado ilícitas essas relações. Apesar do pedido de efeito suspensivo da ação, acolhido no primeiro recurso, a decisão de mérito rejeitou e o processo segue tramitando.
A importância dos autos está em revelar, dentro de uma disputa iniciada por um ex-integrante da estrutura jurídica da Aelbra, um mapa de conexões entre a universidade, o Banco Master, fundos de investimento, administradores e executivos. Ouvindo pelo Poder RS, o advogado Rodolfo Wild informa que o processo ainda está em tramitação, sem decisão final.
O que falta responder
Quem administra hoje o FIDC Calêndula, e o que acontece com as debêntures conversíveis da Aelbra depois da liquidação da Trustee?
Os créditos de mais de R$ 1,5 bilhão continuam no fundo, foram cedidos a terceiros ou alcançam, de alguma forma, a massa liquidanda do Master?
Por que o Calêndula pediu a conversão em ações em maio de 2025 e recuou um mês depois, cinco meses antes da queda do banco?
Outro lado
As posições dos citados reproduzidas nesta reportagem constam de notas e declarações públicas já divulgadas. A assessoria de imprensa da Aelbra foi procurada na sexta-feira, 11, e não respondeu ao Poder RS. As demais posições reproduzidas constam de manifestações públicas. O espaço segue aberto a todos os citados.
Cronologia sintética: as ligações entre a Ulbra, Vorcaro e o Master
Fim de 2018. Professores da reitoria transformam a Aelbra em sociedade anônima e se tornam acionistas (PGFN, via O Sul).
6 de maio de 2019. Aelbra pede recuperação judicial em Canoas, com dívida estimada em R$ 8,2 bilhões.
16 de dezembro de 2020. Vorcaro envia a Walfrido Warde minuta de contrato para atuação de Roberta Rangel na Operação Fundo Fake (relatório da PF, via O Globo). Segundo a PF, a relação profissional de Rangel com o banqueiro começa nesse mês.
Fevereiro de 2022. A Rede Evolua, de Carlos Melke, assume o controle da Aelbra. Compra financiada, segundo a Aelbra, por crédito do Banco Master; segundo a PGFN, pelo fundo Vanguard, administrado pela Planner Trustee, de Maurício Quadrado.
2022. Plano de recuperação prevê o fundo Calêndula, ligado ao Master, como stalking horse na compra de uma unidade de Medicina. Ao longo do processo, o Master também compra créditos da Aelbra no mercado secundário e se torna credor relevante.
8 de junho de 2022. Anup ajuíza a ADC 81 no STF, sobre as regras para abertura de cursos de Medicina.
21 de setembro de 2022. Vorcaro envia a Warde minuta de contrato para atuação de Roberta Rangel na ADC 81. O Globo associa o interesse do banqueiro à Ulbra.
Fim de 2022. Roberta Rangel deixa o Warde Advogados.
2023. Master tenta abrir filial em Porto Alegre.
2023. O advogado Rodolfo Wild, ex-procurador-geral da Aelbra, ajuíza ação de arbitramento de honorários contra a Aelbra Educação Superior.
Julho de 2023. A Faculdade de Medicina vai a leilão, com mínimo de R$ 700 milhões. O Calêndula é o único inscrito e dá o único lance. Em 31 de julho, o juiz Sandro Antônio da Silva, da 4ª Vara Cível de Canoas, suspende a proclamação do resultado e chama de preocupante a habilitação do fundo.
7 de agosto de 2023. Gilmar Mendes concede liminar parcial na ADC 81.
Agosto de 2023. O desembargador Niwton Carpes da Silva, do TJ-RS, libera a divulgação do resultado do leilão. No mesmo mês, a PGFN acusa nos autos uso da recuperação para lesar credores e aponta o Calêndula como credor e devedor ao mesmo tempo. A AGU sustenta nulidade dos leilões por falta de autorização do MEC.
28 de setembro de 2023. STJ suspende, a pedido da União, a decisão que autorizava a alienação da unidade de Medicina, citando o passivo fiscal superior a R$ 6 bilhões e a ausência de autorização prévia do MEC.
20 de dezembro de 2023. Credores aprovam plano substitutivo: venda da Medicina sai, conversão dos créditos do Calêndula (mais de R$ 1,5 bilhão) em capital entra, com piso de 30% para a controladora.
4 de junho de 2024. STF conclui a ADC 81 por 8 a 3. Toffoli integra a corrente de sete ministros que modula os efeitos e preserva cursos e processos avançados.
29 de julho de 2024. Aelbra emite a segunda série de debêntures conversíveis.
2024. Quadrado deixa a sociedade do Master. O liquidante do banco aponta transferência de R$ 230 milhões, nesse ano, ao Fundo Albali, controlado por ele.
2024. Wild pede a desconsideração da personalidade jurídica para alcançar Banco Master, Calêndula FIDC, Cartos, Vanguard e Trustee/Planner.
Fim de 2024. Marcello Stewers assume a vice-presidência e a diretoria administrativa e financeira da Aelbra, substituindo Antônio Carlos Romanoski. Os dois teriam sido indicados pelo Banco Master.
27 de maio de 2025. FIDC Calêndula pede a conversão das debêntures em ações ordinárias.
Maio de 2025. Stewers deixa a universidade, sem comunicação interna ou externa.
27 de junho de 2025. Calêndula pede a suspensão da conversão.
17 de novembro de 2025. PF prende Daniel Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, na primeira fase da Operação Compliance Zero.
18 de novembro de 2025. Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
14 de janeiro de 2026. Segunda fase da Compliance Zero cumpre mandados em cinco estados, incluindo o Rio Grande do Sul.
12 de fevereiro de 2026. Após relatório da PF com menções a Toffoli, o ministro deixa a relatoria do caso Master e nega relação com Vorcaro.
14 de fevereiro de 2026. O Globo revela as minutas de contrato para Roberta Rangel e a ligação da ADC 81 com a Ulbra.
6 de março de 2026. Aelbra divulga nota: diz que a Ulbra nunca foi controlada pelo Master, reconhece o financiamento e o vínculo de origem do Calêndula com o banco e se declara vítima.
9 de abril de 2026. O TJ-RS recebe agravo de instrumento, sob sigilo, envolvendo Banco Master em liquidação, Calêndula FIDC NP e Cartos. Relator: desembargador Mauro Caum Gonçalves.
22 de abril de 2026. Sinpro/RS denuncia novo adiamento no pagamento de R$ 193 milhões a cerca de 10 mil credores trabalhistas.
Fim de abril de 2026. MEC suspende ingresso na Medicina da Ulbra em Gravataí e interrompe o curso em Porto Alegre. Imprensa gaúcha identifica o Calêndula como fundo da gestora Trustee.
Junho de 2026. Quadrado fecha acordo com o liquidante do Master.
27 de agosto de 2026. PF entrega a Mendonça o relatório de 218 páginas sobre o celular de Vorcaro, sem menção à Ulbra.
1º de setembro de 2026. Mendonça retira o sigilo desse relatório.
3 de setembro de 2026. BC liquida a Trustee DTVM e a Banvox DTVM, de Maurício Quadrado.
10 de setembro de 2026. STF abre o sigilo de 15 procedimentos do caso (25,3 GB). A piauí revela o relatório de 196 páginas sobre Toffoli.
15 de setembro de 2026. Sessão extraordinária do plenário do STF sobre o relatório da PF.


Bela matéria!
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